O que se passa na África do Sul? Entrevista com Lybon Mabasa

Causou grande repercussão a renúncia do presidente Jacob Zuma e sua substituição por Cyril Ramaphosa, ambos velhos militan­tes do Congresso Nacional Africano (CNA), a mesma formação política do ex-presidente Nelson Mandela, que governou o pais desde o final do Apartheid (regime de segregação racial contra a maioria negra) de 1994 até 1999, vindo a falecer em dezembro de 2013.

Reproduzimos entrevista ao jornal Informações Operárias da França, com o dirigente do Partido Socia­lista da Azânia (nome africano do país), o SOPA (sigla em inglês), Lybon Ma­basa, que também é m e m b r o da coorde­nação do Acordo In­ternacional dos Traba­lhadores e Povos.

Informações Operárias – Cyril Ramaphosa foi eleito presidente pelo parlamento sul-africano em 15 de fevereiro, quando o mandato de Jacob Zuma, seu antecessor, só terminaria daqui a um ano. Em seu primeiro discurso o novo presidente disse: “Um novo começo nos espera, um fantástico recomeço”. O que você pensa disso? Qual é o sentimento do povo negro sobre o novo presidente?

Lybon Mabasa – Após muitos anos sob a direção de Zuma, amplos setores da população exigiam a sua saída, mas, apesar do questionamento à sua auto­ridade durante meses, ele se agarrava ao poder. Sob pressão de dirigentes do CNA ele finalmente foi obrigado a retirar-se. Sua partida despertou grandes esperanças de mudança. O povo acreditou que enfim iria obter o que espera desde 1994: terra, serviços públicos, saúde, emprego e educação. Ilusões baseadas na crença de que um presidente rico deveria forçosamente enriquecer o povo!

Mas as bases do atual poder conti­nuaram inalteradas e é evidentemente impossível para o CNA modificar as orientações fundamentais de sua política: a defesa dos privilégios dos brancos, a aceitação da inferioridade econômica e social dos negros.

A título de exemplo: o desempre­go atinge 50% da população negra e é praticamente inexistente entre os brancos. O desemprego atinge até e de forma ampla os negros diplomados.

IO – Ramaphosa também anunciou que quer “curar as feridas” do massacre de Marikana de agosto de 2012, no qual dezenas de mineiros grevistas foram mortos pela polícia. Qual foi a atitude dele no momento desse massacre? Cinco anos e meio mais tarde, o que ele pensa sobre “curar as feridas”?

LB – Ele acredita que os 37 grevistas assassinados pela polícia chamada por ele próprio a atirar contra os mi­neiros reunidos, quando Cyril era o principal dirigente sindical do setor, possam ser esquecidos. Mas, a cada aniversário desse massacre, entre o pessoal da mina, é denunciada a responsabilidade daquele que é cha­mado de “assassino de mineiros” e se reclama a sua prisão.

Mais amplamente, na população, mesmo os que consideram Cyril um “bom homem” não compreendem a sua implicação num massacre como jamais se viu, mesmo no período do apartheid, e que se desenrolou diante das câmeras de TV e todos viram o que ele fez…

IO – Que respostas foram dadas ao combate pela gratuidade dos estudos universitários que mobilizou a juventude no último período?

LB – Nada foi feito nesse domínio, bem como em qualquer outro com­promisso de campanha do CNA.

O cinismo aqui atinge o seu ponto máximo. Ramaphosa é tão rico que tinha prometido não pedir qualquer remuneração para suas funções de chefe de Estado. Mas na verdade ele exigiu um salário superior ao de todos os seus antecessores.

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