Soberania do continente em jogo na Venezuela

Após a proclamação dos resultados das eleições presidencias na Venezuela em 14 de abril, com a vitória do candidato chavista Nicolás Maduro, desencadeou-se uma provocação por parte da oposição pró-imperalista para fabricar uma crise institucional que pudesse abrir terreno para anular a vontade soberana do povo (ver pag. 12).

Algumas horas depois da proclamação dos resultados, uma clara ingerência do governo dos Estados Unidos nos assuntos da Venezuela, como há algum tempo não se via. Jay Carney, porta-voz da Casa Branca, fez uma declaração sobre a exigência de Capriles, candidato derrotado da oposição, de que houvesse uma recontagem de votos: “um passo importante, prudente e necessário para garantir que todos os venezuelanos confiem nos resultados. Apressar uma decisão nestas circunstâncias não seria coerente com as expectativas dos venezuelanos de ter um resultado claro e democrático”. No mesmo tom de Washington, Miguel Insulza, secretário geral da Organização dos Estados Americanos, afirmou “respaldar a recontagem dos votos”.

Assim, o imperialismo estadunidense deu seu aval a Capriles – que declarou que Maduro seria presidente ‘ilegítimo” – para avançar e provocar a situação que já levou a sete mortos e dezenas de feridos.

O imperialismo, depois de tentativas para derrotar o processo revolucionário aberto na Venezuela, com a luta do povo por sua soberania, aproveita agora a estreita margem da vitória de Maduro para tentar derrubar o sucessor e recuperar o terreno perdido no governo Chávez.

O ex-presidente Lula declarou que “os Estados Unidos vira e mexe cisma em contestar uma eleição.” (OESP, 16/04). É verdade. Mas não é só nisso que age o imperialismo dos EUA para subjugar os países.

Os golpes em Honduras e Paraguai, a ocupação do Haiti, são expressões da investida imperialista contra a soberania das nações do continente. Ainda mais agora, diante de sua crise econômica, essa investida se expressa também nas pressões para ditar as políticas dos governos, como quem estivesse tratando de seu quintal.

A ingerência dos EUA nas eleições venezuelanas faz parte da mesma ofensiva que leva Cristine Lagarde, diretora-gerente do FMI, onde quem manda é os EUA, a ditar que “as preocupações com a inflação podem ser tratadas de forma sensata talvez com um pouco de política monetária [aumento de juros], o que provavelmente deve estar em consideração. Essa é uma forma de lidar com a inflação”. Ou que muito está por ser feito no Brasil “sobre os gargalos, sejam portos, aeroportos, rodovias…” (Folha de S. Paulo, 16/04).

Na Venezuela eles querem determinar o que fazer nas eleições, no Brasil querem ditar a política econômica! A legítima reação em defesa do mandato popular contra os golpistas, do presidente venezuelano eleito Maduro, de fato deve implicar em medidas populares que desarmem a base do seu poder, as multinacionais e grupos proprietários dos grandes meios de produção.

No Brasil, defender a soberania da Venezuela deve corresponder à defesa da nossa soberania, para proteger a nação e os trabalhadores das vorazes pressões imperialistas. Com medidas como a centralização do câmbio contra a enxurrada de dólares no país por decisão do Fed (o banco central dos EUA). Como recuperar o patrimônio que foi privatizado, a mando do imperialismo, e não prosseguir com a privatização. Medidas como devolver ao povo haitiano o direito à sua soberania, retirando as tropas brasileiras que ocupam o Haiti, a mando do governo dos EUA.

Editorial da edição nº 728 do Jornal O Trabalho

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