1968: O maio-junho francês – Parte 2

Os trabalhadores entram em ação em 13 de maio, ecoan­do a radicalização estudantil que repercute em todas as camadas da população (1).

A convocação das centrais sindicais era para uma greve de 24 horas, mas é transbordada por uma greve geral ilimitada que será a maior realizada na França. Em 13 de maio a manifes­tação convocada em Paris reúne 500 mil jovens e trabalhadores (1 milhão em todo o país) contra a repressão e por suas reivindicações. Um grito ganha as ruas “Abaixo de Gaulle!”.

A greve operária começa em Nantes

Em 14 de maio, a greve começa en­tre os metalúrgicos da Sud-Aviation (aeronáutica) de Nantes. Ao decretá­-la, os operários elegem o seu comitê de greve, integrando os sindicatos, e ocupam a fábrica. O militante Yvon Rocton(2), então secretário da seção na fábrica da central sindical CGT-FO, joga um papel dirigente na greve.

Ela se estende para outras fábricas em todo o país, nas metalúrgicas (Re­nault e depois todo o setor automo­tivo), têxteis, químicas, petroleiras e farmacêuticas. Em 17 de maio é a vez dos serviços públicos de trans­portes, energia, correios e seguridade social. Os professores se juntam ao movimento em 19 de maio. Em to­das as categorias onde há sindicatos a greve é engrossada, paralisando o funcionamento do país e acuando o governo.

Em 23 de maio, a greve geral en­globa dez milhões de trabalhadores e jovens. A França parece uma floresta de bandeiras vermelhas plantadas nas fábricas, canteiros de obras, escritórios, órgãos públicos, escolas secundárias e faculdades.

Todos juntos, como classe, face à burguesia e seu Estado

A greve geral começou sem con­vocação formal das centrais sindi­cais, como um rastilho de pólvora, traduzindo a necessidade de lutar todos juntos, como classe, contra a burguesia e seu Estado.

Os grevistas viam nas organizações sindicais a sua direção. Mas, a atitude dos dirigentes dessas organizações era contraditória com a sua vonta­de de ir até o fim em sua luta. Os dirigentes agiram para controlar o movimento, limitá-lo a uma soma de greves parciais e isoladas entre si, fragmentando as reivindicações sem avançar a questão do poder (Abaixo de Gaulle).

Qualquer pretexto era usado pelos dirigentes para esvaziar de trabalha­dores as fábricas ocupadas, deixando nelas apenas uma “guarda”. O que só era possível em ausência de comitês de greve eleitos nos locais de traba­lho, uma fragilidade do movimento: milhões de grevistas não terão o con­trole sobre a sua própria luta.

A organização regional ou nacional da greve geral, baseada em comitês de greve de cada empresa, que pode­ria dar uma direção única ao movi­mento, ainda que fosse a orientação de setores minoritários, como os militantes da OCI, não se realizou, chocando-se com o caráter disperso que as direções acabaram impondo ao movimento.

“Não assinem”

A greve geral criou uma situação em que a questão do poder se colocou: um governo operário que atendesse as reivindicações e transformasse a sociedade, libertando-a da explo­ração e da opressão. Mas sua força não foi centralizada num comitê nacional da greve geral.

Diante desse vazio, quem começou a falar foi a oposição parlamentar dirigida por François Mitterrand (federação da esquerda democrata e socialista). Em 21 de maio, apoiada pelo Partido Comunista Francês (PCF), essa oposição apresenta uma moção de censura ao governo, mas a maioria gaullista a derrota. Em 27 de maio, um comício organizado pelo PSU (socialistas unificados) e a CFDT (central sindical), propõe um governo de Pierre Mendès-France, político pequeno-burguês de verniz “progressista”.

O governo de Gaulle-Pompidou não podia atacar de frente a greve geral e buscou atrair os dirigentes das centrais sindicais para uma “ne­gociação”. Os primeiros a aceitar são os da CGT, ligados ao PCF, a central com maior peso nas fábricas.

Em 27 de maio são anunciados os acordos de Grenelle, que incluíam várias concessões reais (aumento do salário mínimo, aumento geral de salários de 10%, extensão de direitos sindicais e pagamento parcial dos dias parados). Mas, são deixadas de lado reivindicações centrais da greve geral, como a anulação de decretos baixados por de Gaulle em 1967.

Quando os dirigentes sindicais apresentaram os acordos na as­sembleia dos operários da Renault­-Billancourt, os mesmos são rejeita­dos aos gritos de “Não assinem!”, dando a senha para muitas outras assembleias. A greve geral vai conti­nuar, para decepção dos dirigentes que tinham convocado toda a im­prensa para registrar o seu fim.

Movimento é canalizado para eleições

Em 30 de maio, o presidente De Gaulle dissolve a Assembleia Nacional e convoca eleições para 23 de junho, com Pompi­dou continuando a ser primeiro-minis­tro, ameaçando com o uso da força para manter a ordem.

Os dirigentes do PCF e da CGT não abrem qualquer outra perspectiva e militam para que os grevistas aceitem os acordos de Grenelle. No início de junho, pouco a pouco, ocorre um retorno ao trabalho.

Em 15 de junho, o governo adota represálias, já com o país “normaliza­do”, como a dissolução de organiza­ções de juventude e de organizações revolucionárias, sob pretexto de “vio­lência e desordem” (ver box). Nas eleições convocadas por de Gaulle, é a direita que faz a maioria.

As lições do maio-junho francês de 1968 são de enorme importância para a luta dos trabalhadores e jovens de todo o mundo.

Lauro Fagundes

Notas

  1. Este artigo foi escrito com apoio no dos­siê “50 anos do maio-junho” publicado no jornal “Informações Operárias”, órgão do Partido Operário Independente da França..
  2. Yvon Rocton, operário de vanguarda, membro da OCI, faleceu em 27 de se­tembro de 2008, deixando em escritos e entrevistas um testemunho militante da greve geral de 1968.

UMA NOTA DE PIERRE LAMBERT

Dentre as organizações dissolvidas pelo poder estava a Organização Comunista Internacionalista (OCI), cujo dirigente Pierre Lambert, em 15 de junho de 1968, escreveu:

“O grito do estudante anônimo ‘Libertem nossos companheiros’ exprimia a resposta da juventude à decadência do regime. Em 14 de maio, os operários da Sud-Aviation, em Nantes, junto com todos os sindicatos, deflagraram a greve com ocupação que iria desenvolver-se como greve geral. Violência? Desordem? Só um apóstolo do regime do lucro pode qualificar assim a resistência operária às demissões e ao desemprego. (…)

Uma vez mais, para salvar o capital e seu Estado, os dirigentes do PCF e da CGT sacrificaram os interesses imediatos e gerais do movimento operário, para vergonha do stalinismo (…).

Pode-se dissolver as organizações, mas não as ideias. A 4ª Internac­ional, cujo programa marxista mergulha suas raízes nas experiências do movimento operário, integra na sua luta pelo socialismo a defesa incondicional das liberdades democráticas, a liberdade de expressão não se divide. A 4ª Internacional prosseguirá o seu combate”.