Haiti: revolta popular contra o governo

No domingo 9 de junho, centenas de milhares de manifestantes saíram às ruas das principais cidades do Haiti. Porto Príncipe, capital do país, foi tomada por multidões que exigiam a renúncia do presidente Jo­venel Moïse. Ele é acusado de desviar mais de dois bilhões de dólares do fundo da PetroCaribe (uma aliança patrocinada pela Venezuela que permitia ao Haiti comprar petróleo mais barato e facilitar o comércio entre esses países).

Em fevereiro, enormes manifesta­ções já haviam parado o país. Agora, com a publicação do segundo rela­tório do Tribunal Superior de Con­tas (que traz também informações detalhadas da enorme corrupção do governo Michel Martelly, antecessor de Moïse, seu mentor e dirigente de seu partido, o PHTK), a classe trabalhadora entra firme na luta. As organizações sindicais participaram ativamente das manifestações e or­ganizaram uma greve geral durante a semana que se seguiu.

Nos dias 10 e 11 de junho, Porto Príncipe estava quase que comple­tamente paralisada. Transportes públicos, comércio, bancos, esco­las, fábricas, postos de gasolina e repartições públicas não funcio­naram. Mesmo nos bairros mais afluentes, quase tudo permaneceu fechado a maior parte do tempo. Apenas na tarde da 3ª feira, as fá­bricas no Parque Industrial SONAPI começaram a reabrir.

No domingo, barricadas de pneus em chamas, pedras e peças de car­ro bloquearam as avenidas – in­cluindo algumas estradas. Em Por­to Príncipe, manifestantes joga­ram pedras contra a Embaixada da França – cujo governo dá apoio ao presidente haitiano.

As manifestações continuaram ao longo da ultima semana.

Governo responde com forte repressão
A despeito da força das manifesta­ções o governo recusa-se a renunciar e intensifica a repressão. Segundo a Radio Timoun (ligada à Fundação Aristide pela Democracia), quase cem pessoas foram feridas e ao menos sete assassinadas por forças policiais ou paramilitares (milícias mercenárias de apoio ao governo). Dezenas de manifestantes foram presos, alguns estando ainda desa­parecidos. Jornalistas também têm sofrido repressão.

Moise mantém a economia do país subordinada aos interesses de potências externas (EUA e França sobretudo) e multinacionais – e, assim, mantém o povo na pobreza e no desemprego. Não bastasse isso, seu governo está afundado em vários casos de corrupção – além da Petro­caribe, está envolvido, por exemplo, num esquema com os proprietários de portos privados, financiadores de sua campanha eleitoral, que prati­cam contrabando sob vistas grossas das autoridades – resultando num prejuízo de quase meio bilhão de dólares ao ano.

Correspondente