O povo chileno se levanta 30 anos após o fim da ditadura

Os fatos sucederam-se rapidamente nesse outubro combativo no Chile. Do clamor pela brutal desigualdade refletida nas pensões, na crescente revolta com o custo de vida, a corrupção de políticos, a submissão do governo Piñera aos ditados de Trump e sua aliança perversa com Macri, Bolsonaro e Duque (presidente da Colômbia, NdT).

Quando meninas secundaristas invadiram uma estação de metrô, pulando a catraca, por causa da alta da passagem, ninguém imaginou o que viria.

Foi tão contagiosa essa mobilização, que os sindicatos e associações começaram a convocá-la e saíram em defesa dos estudantes, acusados de delinquentes pelo governo.

O metrô recebeu ordem de fechar estações para provocar o rechaço dos cidadãos aos protestos, mas o resultado foi o oposto, o pula-catraca aumentou e começou a transbordar. Regiões para além de Santiago começaram a se manifestar, em geral pacificamente, mas a polícia reprimiu com tudo.

O governo ficou em silêncio quando surgiram informações das primeiras mortes. As organizações aglutinadas na Unidade Social – dentre elas a Coordenação “Não + AFP”, a CUT, associações de saúde, professores, comércio, estudantes universitários e secundaristas – rapidamente começaram a organizar a greve geral nas regiões e na capital para os dias 22 e 23. Na prática ela foi até sexta-feira 25, por falta de transportes.

Repressão brutal não detém o movimento
Os dias anteriores foram muitos duros. Nos bairros se enfrentava a polícia e os militares desafiando o toque de recolher. Há muitos registros de invasões de fardados às casas buscando por manifestantes e de violações dos direitos humanos. O fantasma de 1973 (golpe de Pinochet, NdT) longe de atemorizar, deu nova energia ao povo.

A Constituição da época da ditadura segue vigente no Chile e foi blindada por governos “democráticos” vindos depois. Acabar com as fraudes na educação, na saúde, na previdência, nos recursos naturais, passa por exigir mudanças nessa constituição, mas os sucessivos governos fecharam a possibilidade de se fazer um plebiscito para que os chilenos decidissem.

A histórica marcha de 25 de outubro mobilizou mais de um milhão de pessoas só em Santiago. No domingo 27, se encheu o Parque O’Higgins na capital com uma multidão que se emocionou com o minuto de silêncio em homenagem aos que tombaram nesses dias.

Segunda e terça-feira os noticiários novamente espalharam o medo com imagens de saques e incêndios. Mas marchas em todo o Chile novamente iniciam a semana.

O governo tenta dividir a população, combinando os discursos de violência e paz, deixando de fora as demandas prementes, como justiça social, salários e pensões dignas, educação gratuita e de qualidade, saúde para todos, acabar com a privatização da água, dentre outras.

Em 30 de outubro se inicia uma nova jornada de greve geral. Não se trata de 30 pesos, mas de 30 anos de abusos!

Javier Márquez, Santiago, 29/10


“Uma Constituinte para garantir os direitos”

Abaixo trechos do discurso de Luis Mesina, dirigente bancário e porta-voz da campanha Não + AFP, em nome da Unidade Social, na concentração de 27 de outubro no Parque O’Higgins:

“Rechaçamos a tentativa do governo e de setores da oposição de construir um acordo nacional com os mesmos de sempre. Acreditamos que é fundamental avançar em direção a uma mudança da Constituição, que necessariamente deve ser efetuada por uma Assembleia Constituinte.

‘O Chile despertou’ e é responsabilidade de todos nós que não nos apliquem um sonífero, como tantas vezes ocorreu. O governo, ex-dirigentes da Concertação, os grandes meios de comunicação, estão preparando a sua estratégia. Buscam uma saída para a crise por cima, menosprezando os milhões que estão mobilizados.

Se nós paramos, se baixamos os braços, de pouco terá servido todo esse esforço e o dos 20 companheiros que pagaram com suas vidas este despertar. Necessitamos com urgência levantar uma agenda de direitos fundamentais. Uma Assembleia Constituinte para garantir o direito à Previdência Social, acabando com o negócio das AFP {Fundos de Pensão privados, NdT]. Uma Assembleia Constituinte para recuperar a Educação Pública, a habitação digna, o respeito integral aos direitos dos trabalhadores e à negociação coletiva por ramo. Uma Assembleia Constituinte que reconheça a diversidade do nosso território e respeite a autodeterminação dos povos que exigem autonomia.

Esta semana é preciso frear Piñera. Enquanto o povo está nas ruas, ele tenta levar adiante uma agenda legislativa cheia de contrabandos que atacam os direitos das pessoas. Para impedir e rechaçar todas as reformas que pretendem consolidar o atual modelo que milhões de pessoas saíram às ruas para questionar.

Chamamos os congressistas a definirem-se, ou estão com o povo que exige restituir seus direitos, ou estão por manter o atual sistema fracassado. Chegou a hora para que se coloquem claramente ao lado daqueles que lutam para fazer do Chile um país mais justo, mais inclusivo e verdadeiramente democrático.”