50 anos do Golpe (2): a conspiração golpista

1. O golpe de 1º de abril de 1964 iniciou um longo período de terror e perseguições contra as massas trabalhadoras, suas organizações e militantes.

A ação foi orquestrada diretamente pelo imperialismo estadunidense diante de uma crise revolucionária no país fruto das crescentes mobilizações das massas. Reivindicações como a reforma agrária, o controle da remessa dos lucros das multinacionais, mais vagas nas universidades e a ampliação do direito de votos aos analfabetos e militares abriam novas e inéditas possibilidades para a conquista de direitos à maioria oprimida e pela soberania do país.

Após o grande comício do presidente João Goulart (o Jango) em 13 de março de 1964 no Rio de

Janeiro – que demonstrava grande apoio popular às reivindicações – outro exemplo inédito da efervescência política da época ocorria na Marinha. Entre 25 e 27 de março de 1964, um motim com mais de 1200 marinheiros protestou contra a punição de líderes de sua associação. Jango anistiou os dirigentes para fúria da cúpula militar. Ele buscava apoio das massas mobilizadas, o que era inaceitável para o imperialismo e seus agentes no país. Com amplo apoio das massas, cujas mobilizações iam muito além do que queria o presidente (ele buscava na verdade controlá-las), como foi possível vingar o golpe que instalou a ditadura militar?

A articulação golpista

Hoje, farta documentação comprova que o golpe de 1964 foi preparado com método pelos EUA desde o interior da sua embaixada no país: no plano da economia (dificultando empréstimos e o comércio externo, por exemplo), da propaganda (financiando intelectuais de direita e agências de publicidade), e conspirando através de agentes no interior das forças armadas e políticos conservadores. O golpe civil-militar envolveu não só a cúpula militar, mas empresários, latifundiários e políticos conservadores. Entre os governadores que o apoiavam estavam Adhemar de Barros de São Paulo, Magalhães Pinto de Minas e Carlos Lacerda do Rio, entre outros.

A crise econômica com inflação em alta ajudou os EUA a sufocar a economia nacional e, num quadro de deterioração da situação no país, agitar a classe média conservadora. No exército o general Castello Branco fora escolhido para articular o golpe. Mas houve resistência por baixo e que se expressou no 2º Exército em São Paulo e no 1º Exército no Rio. Setores queriam defender o presidente. No Rio havia ainda amplos setores dos marinheiros que poderiam marchar contra o golpe. Mas, com a subordinação de oficiais ainda legalistas aos líderes golpistas, o chamado “dispositivo militar” governista se esfumaçou. O presidente Jango podia resistir. Havia forças significativas ao seu lado, mas teria que mobilizar as massas para a luta aberta. Tudo que ele temia. Também o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT, que reunia a cúpula das confederações oficiais) nas mãos do PCB com uma linha de apaziguamento, não preparou de fato a Greve Geral para resistir ao golpe. Os militantes operários e populares estavam politicamente despreparados. Por isso, a greve geral atrasada e mal preparada principalmente nos setores estatais, nas estradas de ferro e nos portos, acabou por prejudicar os defensores da legalidade, as forças contra o golpe e as possibilidades de resistência.

Jango fugiu sem chamar a resistência

Não foi a “provocação” aos militares ou à burguesia que motivou o golpe, como afirmaram certos historiadores, em particular os que militaram no estalinismo. Foi a impossibilidade de o movimento operário avançar de forma independente – unificando a nação sob sua direção – bandeiras anti-imperialistas (como a reforma Agrária, o controle dos lucros das multinacionais). E isso era possível, exigia independência frente ao governo de Jango. Mas as massas foram entregues de mãos quase atadas ao golpismo. O presidente fugiu e deixou o movimento de massas que o apoiava, principalmente através do PCB, pra trás. Esta liderança anulou de fato o grosso da militância no apoio a Jango. A ilusão dos que votaram em Jango pelas reivindicações da maioria da nação oprimida, e sem uma direção operária independente, não fortaleceu a via da auto-organização das massas, o que poderia ter derrotado a articulação do golpe.

Milhares de militantes, marinheiros, soldados nas Forças Armadas, centenas de milhares de trabalhadores nos sindicatos, nas ligas camponesas no nordeste e nas organizações estudantis poderiam resistir se houvesse uma direção operária disposta a unificar e organizar de forma independente seu movimento. Tentativas de resistência logo após o golpe foram isoladas da ação das massas, como as tentativas de guerrilhas de Brizola. O PCB, com o peso que desfrutava na cúpula e na base das organizações, foi decisivo para desarmar a resistência e, diga-se de passagem, nunca mais se recuperou. Por outro lado, as saídas esquerdistas e castristas (as guerrilhas) em geral davam as costas à unidade anti-imperialista e à intervenção nas organizações das massas deixando o campo livre para os carreiristas sindicais ou a dispersão isolada das lutas econômicas e democráticas. Quando as massas voltaram à cena, 15 anos depois, nasceria o PT e a CUT em grande parte colhendo as experiências deste período para as lutas futuras da classe trabalhadora.

Everaldo Andrade

 

2. O Exército e a segurança nacional

No Exército brasileiro em dois episódios que, embora não expliquem tudo, parecem ter tido peso para o alinhamento da maioria dos oficiais ao golpe: a rebelião dos sargentos em setembro de 1963 e a rebelião dos marinheiros em março de 1964.

Porém, havia uma preparação mais longa dos EUA já em andamento com a doutrinação de militares latino-americanos. A

“doutrina de segurança nacional” teve um papel muito importante na imposição de ditaduras militares da América Latina. Uma das características centrais desta doutrina e em particular após a vitória da Revolução Cubana em 1959 foi priorizar os “inimigos internos” do país. Como disse o militante socialista Mário Pedrosa (A Opção Brasileira, 1966): “os chefes militares brasileiros, com exceções, foram seduzidos – como os nossos índios por miçangas e espelhinhos – mas também, não simplifiquemos, por machados de ferros – com a deliciosa exibição de apetrechos, armas, equipamentos militares por nossos riquíssimos irmãos do norte…”.

Mas dentro das forças armadas houve resistência aos EUA e ao golpe. Muitos militares, entre os quais militantes de esquerda – foram presos e torturados por isso. Na edição 745 de O Trabalho está publicada uma entrevista com um companheiro que viveu esta experiência e mantém sua militância hoje na corrente O Trabalho.

Artigos originalmente publicado no jornal O Trabalho, edição 744 – 12 a 26 de março de 2014.

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