Vivian, brasileira, nascida em Governador Valares (MG), vivia nos EUA desde 2019, com processo de legalização em fase de aprovação. Ainda assim, foi presa em agosto de 2024 permanecendo por oito meses sob custódia do ICE (sigla em inglês da polícia migratória de Trump) até a sua deportação.

Ela participou da Jornada Continental em Defesa do Direito de Migrar, na audiência pública, realizada na Câmara Municipal de Governador Valadares e convocada pela vereadora Sandra Perpétuo (PT). Entrevistada por O Trabalho, ela contou a sua história.
OT: Ainda que seja doloroso falar sobre a sua deportação, você tem dito que faz questão que todos conheçam a sua história e entendam o que acontece com os imigrantes naquele país. Então, a palavra é sua.
Vivian: Reviver tudo o que eu passei dói, mexe com tudo, com o corpo, com a mente, com a dignidade. Mas, eu escolhi falar porque o silêncio protege o sistema, não as pessoas.
O que acontece com imigrantes nos Estados Unidos, principalmente dentro dos centros de detenção, está muito longe do que mostram. Pessoas são tratadas como números e durante oito meses eu fui o número A22 12 17 27. Não somos seres humanos. E não estou falando só por mim, falo por todas as pessoas que estiveram comigo, que sofreram, que foram ignoradas, que não tiveram voz.
Eu vi mulheres sendo abusadas de todas as formas possíveis, muitas delas fugindo da guerra, de regimes de opressão, da violência dentro das próprias casas. Mulheres fortes, mas completamente vulneráveis dentro de um sistema profundamente violento.
Foram oito meses de tortura. Fomos privadas de comida, água, medicamentos e, como se não bastasse, vi mulheres com ossos quebrados pela brutalidade de guardas. Questionar qualquer direito se transformava em “castigo”. Éramos colocadas em salas escuras e isoladas ou em “celas” de vidro totalmente nuas, sendo observadas noite e dia, como um aviso às outras detentas para não reclamarem.
Fomos privadas de tanta coisa e sofremos tanta brutalidade nas prisões controladas pelo ICE, que ficaríamos falando só disso nessa entrevista. E se tenho a oportunidade de contar a minha história, tenho também a responsabilidade de expor o que está errado. Penso que só existe mudança quando a verdade vem à tona. Então, sim, é doloroso, mas necessário!
OT: Durante a audiência pública, você destacou em sua intervenção que o direito de migrar é uma questão de soberania. Pode nos falar sobre isso?
Vivian: Quando eu falo que o direito de migrar é uma questão de soberania, eu estou dizendo que nenhum ser humano deveria ter sua dignidade retirada por atravessar uma fronteira. Migrar é um direito humano. As pessoas não saem dos seus países por acaso, saem por necessidade, por sobrevivência, por busca de dignidade. E isso precisa ser respeitado.
Existe uma contradição muito grande no mundo em que vivemos hoje. O capital atravessa fronteiras livremente, o dinheiro circula livremente, as mercadorias circulam livremente, mas quando um trabalhador atravessa uma fronteira em busca de dignidade, ele é tratado como criminoso. Isso precisa ser questionado e denunciado. Migrar não é crime, buscar dignidade não é crime. Migrantes não são números. Controlar fronteiras é um direito dos países, mas isso não pode vir acima da vida, da integridade e do respeito às pessoas. Então, defender o direito de migrar também é defender que a soberania seja exercida com responsabilidade, humanidade e dentro dos limites dos direitos fundamentais.

OT: O governo Lula organizou um serviço de recepção aos brasileiros deportados no aeroporto de Confins (MG). Conte-nos como foi a sua acolhida.
Vivian: Antes quero agradecer publicamente ao Consulado Brasileiro, ao Palácio do Itamaraty e à Polícia Federal Brasileira, que intermediaram a minha deportação. Só depois dessa intermediação é quefui levada algemada para avião.
A recepção no aeroporto de Confins também foi importante. Existe, sim, uma estrutura que oferece um acolhimento inicial, e isso faz diferença quando você chega depois de uma experiência tão difícil. Mas, o problema começa quando você sai dali.
Depois que deixei o aeroporto, não tive nenhum tipo de acompanhamento. Não recebi ligação, orientação, nem apoio para recomeçar. Procurei órgãos públicos na minha cidade e também não encontrei suporte ou informações claras. Tudo o que consegui fazer foi por conta própria e com muita dificuldade. Como tirar novamente meus documentos. E isso é muito difícil quando você chega sem celular, sem dinheiro e, muitas vezes, sem nenhum tipo de referência ou rede de apoio.
No site do governo existem várias informações sobre suporte, mas, na prática, isso não alcança quem realmente precisa. Existe uma desconexão muito grande entre o que está no papel e o que acontece na vida real. O acolhimento precisa ser contínuo, até que a pessoa consiga se reintegrar na sociedade e no mercado de trabalho com dignidade. Porque o retorno não é o fim, muitas vezes é só o começo de outro desafio.
OT: Antes de terminarmos, pode nos contar como tomou conhecimento da Jornada Continental? Acha que foi uma iniciativa válida?
Vivian: Eu tomei conhecimento da Jornada Continental no ato de comemoração do Dia Internacional da Mulher, que denunciou a violência contra as mulheres. Foi ali que conheci a vereadora Sandra Perpétuo, que ouviu a minha história e me convidou para participar da audiência pública e me integrar ao comitê pelo direito de migrar. Acredito que é uma iniciativa mais do que válida.
Não podemos nos calar diante de tantas injustiças. Precisamos nos fortalecer como povo, nos unir, para enfrentar um sistema que, muitas vezes, só gera dor, exclusão e desigualdade. Movimentos como esse são fundamentais para dar visibilidade, para criar rede, para transformar dor em luta e em mudança real.
Espero, de verdade, que mais países se juntem a essa causa e que a gente consiga construir juntos um mundo onde, mesmo com tanta tecnologia, a gente não perca a nossa essência. Não somos máquinas, não somos feitos de ferro. Nós temos sentimentos, temos direitos, queremos dignidade. E como eu disse na Câmara: não existe nenhum ser humano ilegal.
OT: Agradecemos imensamente a sua entrevista!

