Afinal, o que explica um 1º de Maio tão fraco?

Lula fala no 1° de maio na Praça Charles Miller

Não faltavam motivos para a realização de atos importantes de 1º de Maio – dia internacional de luta da classe trabalhadora – no Brasil neste ano de 2022.

Afinal, num mundo sacudido pela guerra no coração da Europa, os salários aqui estão corroídos e perdendo para a inflação, o desemprego atinge mais de 12 milhões de brasileiros e brasileiras, a precarização das relações do trabalho resultante da reforma trabalhista é crescente. Ao mesmo tempo, estamos num ano eleitoral e a candidatura de Lula aparece aos olhos do povo trabalhador como uma esperança de reversão dessa situação terrível.

Mas, o ato principal de 1º de Maio, realizado unitariamente por nove centrais sindicais na Praça Charles Miller em São Paulo, reuniu num clima morno apenas cerca de 5 mil pessoas, se arrastando das 10 horas da manhã até o final da tarde, sem adotar qualquer medida de mobilização para o próximo período, sem qualquer reivindicação clara que dissesse respeito às condições de vida e trabalho, com uma sucessão de discursos eleitoreiros em favor de Lula. Curiosamente, o próprio Lula, que falou já ao final da tarde, disse que “ainda não era candidato”, pois, como se sabe, sua candidatura foi lançada num ato fechado também em São Paulo (Expo Norte) em 7 de maio.

Colhendo o que se plantou
É bom lembrar que em 2020 e 2021 as mesmas centrais sindicais fizeram atos de 1º de Maio virtuais, alegando a pandemia, que reuniram na telinha “amplas frentes”, com a presença de FHC e outros inimigos da classe trabalhadora. Houve quem achasse que em 2022, seria diferente, por ser presencial. Mas não houve grande esforço das centrais sindicais e de seus sindicatos filiados em mobilizar os trabalhadores para participar do ato. Os dirigentes agiram como se bastasse montar o palanque e chamar o Lula para falar e a missão estava cumprida…

A paralisia da CUT, prisioneira de consensos e conchavos entre dirigentes no “Fórum das centrais”, é claro, teve maior peso, pois ela tem uma capacidade de mobilização maior que as demais, mas a letargia atinge o conjunto do movimento sindical brasileiro, hoje perigosamente afastado dos locais de trabalho e priorizando ações institucionais “por cima”. Felizmente os atos bolsonaristas marcados em algumas capitais para enxovalhar a data maior de luta da classe trabalhadora foram muito fracos.

Mas fica o alerta: os atos de 1º de Maio deste ano, em particular o de caráter nacional realizado em São Paulo, demonstraram a pouca capacidade de mobilização das organizações sindicais, a ausência de uma pauta concreta de luta por aumento geral de salários, pelo tabelamento dos preços da cesta básica, pela revogação das reformas trabalhista e previdenciária, contra as privatizações e em defesa dos serviços públicos.

É certo que em colunas, faixas e pirulitos, como os do DAP, apareceram reivindicações concretas em atos do 1º de Maio ao longo do país e no próprio Pacaembu, mas não havia tal disposição por parte das direções das centrais que os organizaram. Ainda é tempo de retomar um sindicalismo combativo que incida na luta de classes.

Julio Turra

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