Conferência europeia diz: Não à guerra!

Manifestação em Madrid, março de 2022

Uma conferência europeia de emergência contra a guerra reuniu, no dia 9 de abril, militantes e organizações operárias, conectados em rede, de 19 países. Convocada pela Nova Corrente de Esquerda (NAR), da Grécia, e pelo Partido Operário Independente (POI), da França, ela foi realizada num momento em que a guerra na Ucrânia se traduz por mais bombardeios, carnificina, execuções sumárias e atos bárbaros.

A discussão entre os participantes foi introduzida por Panayotis Xoplidis, da NAR, e por Jérôme Legavre, do POI. Logo após, foi lida uma mensagem dirigida à conferência, vinda da Rússia (veja abaixo). A seguir, ocorreram as intervenções, em diferentes línguas, durante três horas e meia. Publicaremos algumas dessas falas na próxima edição.

No mesmo dia 9 em que ocorria a discussão, a associação patronal italiana Cofindustria anunciou que a produção industrial havia caído 2,9% no primeiro trimestre, com 8 em cada 10 empresas enfrentando dificuldades de fornecimento.

Dois dias depois, a Organização Mundial do Comércio (OMC) declarou que temia uma “desintegração da economia mundial” causada pela guerra. De acordo com a análise do secretariado da OMC, “a maior parte do sofrimento e da destruição está sendo sentido pelo povo ucraniano, mas os custos em termos de redução do comércio e da produção provavelmente serão sentidos pelas populações em todo o mundo, devido ao aumento dos preços dos alimentos e da energia e à menor disponibilidade das mercadorias exportadas da Rússia e da Ucrânia”.

Como disse um militante irlandês na conferência, “a guerra é paga com o sangue da classe trabalhadora”.

Confiança para agir
Participaram da conferência de emergência militantes de Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Grã-Bretanha, Grécia, Irlanda, Itália, Moldávia, Noruega, Portugal, Romênia, Sérvia, Suécia, Suíça e Turquia – além da mensagem enviada da Rússia. Nas condições atuais, por razões de segurança, não foi possível a participação direta de militantes russos.

Em muitos casos, a audiência da conferência foi coletiva, às vezes a partir de instalações sindicais. As intervenções dos diferentes países denunciaram a mesma realidade: a guerra está no coração da Europa; nossos governos são responsáveis por ela e a utilizam. A guerra está na Europa, pela presença das bases da Otan, pelo fluxo maciço de tropas e armas nas estradas, nas ferrovias, nos portos e aeroportos.

A guerra está presente, com o grande aumento dos orçamentos de armas, que o presidente estadunidense Joe Biden exigiu e obteve de todos os governos. A guerra está presente, conduzida por Putin, pela Otan e pela União Europeia, ameaçando cada vez mais as liberdades e toda a soberania nacional.

A guerra espalha a miséria, a escassez, o aumento dos preços, os cortes nos orçamentos para a educação, para as creches e para a saúde. Um militante romeno salientou que a conferência deu “uma confiança incrível” para agirmos juntos.

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Declaração aprovada pelos participantes

Em todos os países do continente europeu, uma campanha sem precedentes tem sido orquestrada desde 1945 para a corrida armamentista, para a economia de guerra. A Otan e a União Europeia são os instrumentos dessa militarização. A saída está na luta pela emancipação dos povos e dos trabalhadores da Federação Russa, os únicos que podem deter Putin em seu trabalho destrutivo e impor a retirada das tropas russas da Ucrânia. E a saída está na capacidade dos trabalhadores e dos povos de toda a Europa de unir forças para pôr fim às políticas da Otan, da União Europeia e do capital, para bloquear a máquina de guerra, os orçamentos militares, as intervenções imperialistas e para impor que essas somas gigantescas sejam utilizadas para a saúde, a educação e as necessidades sociais.

Nós decidimos fortalecer os laços entre todos aqueles que, neste período decisivo, estão determinados a lutar:
▪ pelo fim da guerra da Rússia de Putin na Ucrânia;
▪ pelo desmantelamento das bases da Otan;
▪ contra os orçamentos de guerra;
▪ contra a união nacional;
▪ pela independência da classe operária e de suas organizações;
▪ em defesa das reivindicações dos trabalhadores.

Propomos utilizar o Comitê Internacional de Ligação e Intercâmbio (Cili) para que seja organizada, nos próximos meses, uma conferência mundial aberta contra a guerra e contra a exploração.

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“Tormento de extrema gravidade”
A mensagem abaixo foi enviada por militante da Rússia e lida durante o evento

Policiais russos prendem manifestantes contra a guerra em São Petersburgo

Na Rússia de hoje, sob pena de pesadas acusações criminais (até 15 anos de prisão – NdT), não podemos chamar as coisas pelo nome. Portanto, caros companheiros franceses e gregos que estão convocando esta conferência, vou usar a expressão autorizada, a fim de me proteger. Será que os trabalhadores e os povos da Federação Russa querem a “operação militar especial”?

Trata-se de uma “operação militar especial” contra uma república vizinha, contra a qual se faz uma propaganda agressiva há trinta anos na Rússia.

É uma “operação militar especial” contra um povo ao qual Putin, mergulhando nas horas escuras da propaganda czarista, nega o direito de ser um povo de pleno direito, com sua própria língua e cultura.

“Operação militar especial” contra um país do qual uma parte do território foi tomada pelo exército de Putin em 2014.

“Operação militar especial” contra um povo no interior do qual o Kremlin atiçou a impaciência e o separatismo para alimentar o conservadorismo e o nacionalismo russo.

“Operação militar especial” contra a Ucrânia que, do mais profundo de suas entranhas, é o berço da cultura russa, e que deu origem ao primeiro Estado russo e às três mais belas línguas, que são o ucraniano, o bielorrusso e o russo.

“Operação militar especial” contra a Ucrânia, que a Rússia czarista tentou “desucranizar”, contra o povo ucraniano cujas costas ela queria quebrar, um povo amante da liberdade e corajoso que lutou por sua própria liberdade e pela liberdade dos povos do antigo império.

Será que os trabalhadores da Rússia, cujas vidas estão sendo devastadas pelo desemprego, aceitam os cortes salariais para financiar essa “operação militar especial”?

Será que os trabalhadores da Rússia querem que os jovens soldados russos ou ucranianos arrisquem suas vidas na frente de batalha? Eles querem a morte de mulheres e crianças, vítimas inocentes? Eles querem o massacre em Bucha e o bloqueio assassino de Mariupol?

Não! Não! Não! Vergonha a quem afirme o contrário!

Nenhuma “operação militar especial” jamais enriqueceu nenhum povo! O que está acontecendo hoje é um pesado tormento de extrema gravidade. A única saída para o meu país é uma nova república federal revolucionária composta de repúblicas iguais, desnazificadas e desmilitarizadas!

Viva a primavera da liberdade dos povos! Glória ao corajoso povo ucraniano!

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