De Frentes, Democracia e Direitos

Quando o PCdoB se encontra com o PCO e o povo fica pelo caminho.

Começam a se realizar atos “em defesa da democracia” e se esboçam frentes e fóruns com esse conteúdo em São Paulo, Brasília, Minas e outros Estados, apoiados pela direção do PT.

São iniciativas frente ao golpismo – que promete voltar às ruas em agosto – realimentado pela crise social e econômica, contra um governo que, desde o 2º turno, se enfraquece ameaçado até por “aliados” da véspera.

Boa parte da militância e as forças que elegeram Dilma sentem que precisam se unir contra a ameaça de interrupção bastarda do mandato presidencial – a crise do PT só acentua isso.

Não que o governo não tome iniciativas. Mas, há seis meses, elas afundam seu prestígio. Dilma não quer entender o que dizem as suas próprias pesquisas – o principal fator de desgaste é a política econômica. Reafirma o ministro Levy e estica no tempo as recessivas metas do ajuste.

Ela escolheu a visita ao presidente Obama para provar firmeza, que “não vai cair” etc. O homem (Obama) teria “confiança” nela… Mas se for confiança para fazer mais cortes, concessões privadas, juros atrativos para os especuladores e acordos militares com os gringos, aí é que o apoio popular vai escassear!

Duas ferramentas

As coisas não devem ser separadas: a defesa do mandato democrático e o conteúdo social do voto.

Ninguém no movimento dos trabalhadores e nos meios democráticos, pode estar pela “derrubada” de Dilma. Parece que só ao PSTU e ao PSOL (setores?) não incomoda entregar o governo à reação aberta.

A classe dominante, por sua vez, esfrega as mãozinhas. Tem a sua disposição os processos no Tribunal de Contas da União, com as chamadas “pedaladas”, e no Tribunal Superior Eleitoral que estuda os financiamentos de empreiteiras. Ambos, passando ou não pelo Congresso, desembocarão no Supremo Tribunal Federal que banca a industria da delação premiada do juiz Moro, apoiada na mídia. Se tocar a Cunha e Renan, pode se ajeitar, como no “mensalão” tucano, até hoje não julgado.

Daí que a direita tem duas ferramentas: uma é o golpe jurídico-institucional para abreviar o mandato de Dilma, empossando Temer, ou tirar Dilma e Temer, mas aí teríamos uma nova eleição; outra é a transferência progressiva do poder para o eixo PMDB-PSDB, com o vice Temer de pivô, deixando Dilma pendurada.

Anote-se que as duas ferramentas não se excluem, podem se combinar no tempo. É que a dobradinha PMDB-PSDB já opera pela redução dos direitos sociais, pela revisão do pré-sal e pela terceirização que, afinal, são o conteúdo social do golpismo.

Uma saída

Para o PT e as forças populares construírem uma saída, a defesa do mandato exige que Dilma mude a sua política econômica, inclusive para polarizar setores democráticos do chamado “centro”.

Não é uma condição para as frentes que se formam. É um imperativo se quiserem vencer: o fim do superávit, a reversão dos cortes, a derrubada dos juros, e a defesa do Pré-sal. Se não, para os fins da frente, terminará impossível mobilizar as massas trabalhadoras que, aliás, já entram em luta contra a conseqüência da política econômica como fazem os petroleiros, os docentes, os servidores de universidades etc.

E como a crise política é cada vez mais institucional, a discussão sobre uma Constituinte para a reforma política também se coloca nas frentes para construir uma saída de fundo.

Curioso, embora triste, é forças tão diferentes como PCdoB e PCO (veja abaixo) não verem questões tão simples. Mas, é a confusão dos dirigentes do PT que deixa um espaço.

Uma frente é necessária, mas nenhuma substituirá por si mesma a responsabilidade do principal partido de massas: o PT. Ela hoje se concentra na responsabilidade de sua direção (e Lula) de sair da subordinação à política suicida do Planalto.

É a atitude que abre o caminho mais curto para o povo defender as conquistas e livrar-se da ameaça reacionária para não falar da tragédia eleitoral anunciada para o PT.

João Alfredo Luna



O PMDB vai salvar Dilma?

Desenvolto, o PCdoB de origem stalinista avança a enésima reedição do “etapismo”.

Vale-se da proximidade na coligação com o PT dos ministros, parlamentares e prefeitos. Joga com o terror do “golpe que já está em curso”. Não liga o espaço para direita deixado pela política econômica e combate quem liga as reivindicações sociais: seria “interesse de segmentos”, disse num ato em São Paulo Jamil Murad, do seu Comitê Central. A eles, opôs a “defesa da democracia”, onde o fiel da balança é o centro: o PMDB, face ao espanto corrigiu, “um setor do PMDB”.

É um formalismo cego e criminoso. Cego por esperar do PMDB a salvação. E criminoso por bloquear a mobilização da maioria contra o golpe, para quem a democracia tem o sentido do acesso a emprego, moradia, educação e saúde, enfim, aos direitos.

É preciso coragem, como seu dirigente Renato Rabelo, para dizer “temos experiência e sabemos bem como lutar contra ondas dessa natureza”. Pois dá última vez, em 1964, deram com os burros n’água, essas teorias de aliança com a burguesia democrática…

Por isso, era bem presente na fundação do PT a critica daquela colaboração de classes pela afirmação da “independência política dos trabalhadores”, base de qualquer aliança pontual.

“Mobilizar as massas” : como?

O discurso do PCO também anuncia o golpe na esquina. Bem menos influente que o PCdoB, pode, todavia, confundir uma alternativa, com uma fraseologia radical que não repousa na raiz da situação.

O editorial do seu jornal de 16/7 acusa o PT de “silencio diante do golpe”, mas não há nenhuma palavra sobre a política econômica de Dilma ou do ajuste.

Conclui que “a única maneira de derrotar os golpistas é deixar claro para os trabalhadores que estamos diante de um golpe de Estado contra o qual é preciso uma ampla mobilização das massas”. Mas, nesse caso, como mobilizar as massas?

Sem responder ao desemprego e aos cortes de verbas; sem ligar a defesa do mandato ao conteúdo do voto e, portanto, exigir mudanças?

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