Declaração do Secretariado Internacional da 4ª Internacional

16 de setembro de 2022

O Secretariado Internacional da 4ª Internacional – que desde o dia seguinte à eclosão da guerra na Ucrânia tomou posição dizendo: “Nem Putin, nem Otan!” – constata: a atual guerra na Ucrânia tornou-se, de fato, uma guerra mundial. Desde já, em todos os continentes, os povos sofrem as suas consequências. Em nome da “economia de guerra”, temos a inflação, a alta dos preços, o empobrecimento de centenas de milhões de seres humanos.

Esta guerra opõe o regime de Putin à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) – uma aliança bélica impulsionada diretamente pelo imperialismo dos Estados Unidos, sendo as burguesias europeias só auxiliares menores, totalmente alinhadas com Washington. Com o risco, a qualquer momento, de um desenvolvimento descontrolado ou de uma provocação com consequências catastróficas para toda a humanidade.

Os objetivos desta guerra são claros:

+ por um lado, o imperialismo dos Estados Unidos pretende pôr a Rússia de joelhos, abrindo assim a via à reconquista das imensas riquezas desse país, notadamente petróleo e gás – e ninguém se esquece do que fizeram com o Iraque, sob o pretexto de um arsenal de armas de destruição em massa, e as verdadeiras razões para a destruição do país: “Se o Iraque produzisse cenouras, nunca teríamos ido lá”, disse na época um dirigente dos EUA. No caso da Rússia, são riquezas que não puderam ser usadas para a valorização do capital, há mais de um século, por causa da Revolução de Outubro.

+ por outro lado, os objetivos da guerra estão ligados aos interesses dos pedaços decompostos da burocracia stalinista, da qual Putin é, de uma só vez, herdeiro e administrador da massa falida, a serviço do sistema capitalista. Putin e seus amigos estão lutando pela sobrevivência, que depende do resultado das operações em curso. Vem daí a aventura criminosa de invasão da Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022.

Os meios usados pelo imperialismo para a guerra não têm limites. O regime de Zelinski só pode aguentar-se com base nas dezenas de bilhões de dólares e nas armas de última geração enviadas pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em quantidade ilimitada, bem como por todos os governos europeus.

Esta guerra não é nossa. Com Karl Liebknecht – único deputado do Partido Social-Democrata (PSD) da Alemanha que se recusou a votar a favor dos créditos de guerra em 1914 –, nós afirmamos: “O inimigo está em nosso próprio país”. Há vozes que hoje se levantam, como a de Luigi de Magistris, porta-voz do movimento Unione Popolare, na Itália, que declara: “Não se pode dizer, por um lado, que se é contra a guerra e, por outro, votar a favor do envio de armas e do aumento das despesas militares”; ou como a da deputada Sahra Wagenknecht, que, no seu discurso no Parlamento alemão, denunciou: “A ideia de que podemos punir Putin mergulhando milhões de famílias alemãs na pobreza e destruindo a nossa indústria, enquanto a Gazprom obtém lucros recordes, não será o cúmulo da estupidez? Essas desastrosas sanções econômicas têm de acabar.”

Nos recusamos a aderir a uma guerra apresentada como sendo de “democratas” contra “autocratas”. Apoiamos incondicionalmente os trabalhadores e jovens da Rússia que rejeitam a guerra e conseguirão, mais cedo ou mais tarde, pôr fim a Putin e a seu aparelho policial. Essa tarefa é deles, e só deles.

Não estamos entre os que, em nome da “emergência humanitária”, organizam a ingerência por conta dos Estados Unidos, o que leva sempre à guerra, como vimos na Somália, na Iugoslávia, na Líbia etc. O destino dos povos não pode ficar a cargo da Otan e do imperialismo. Já se formam blocos (como Otan contra China/Rússia, por exemplo), e os riscos de uma conflagração mundial estão presentes. Para nós, combater a guerra significa combater o inimigo de classe, o imperialismo em geral e em cada país, que, para ir até o fim do que busca desde a vitória da Revolução de 1917 – primeiro com a ajuda do stalinismo, e agora com a de Putin –, quer colocar o proletariado russo sob a sua bota.

A luta contra a guerra e o militarismo é inseparável do combate, em cada país, contra as medidas tomadas em nome da “economia de guerra” (inflação, alta de preços etc.) – em primeiro lugar, contra o alto custo de vida –, por meio do congelamento de preços, pelo aumento geral dos salários.

A partir de hoje – e com efeito imediato –, o conjunto das nossas organizações devem centrar a sua atividade de propaganda e de organização nas seguintes palavras de ordem, que constituirão o eixo da nossa expressão política em todos os países:

1 – Em primeiro lugar, nos países membros da Otan, combatemos pela imediata saída do país do quadro da Otan e de seu comando integrado. Isto se impõe em particular para a nossa seção francesa, uma vez que a França é, simultaneamente, uma potência nuclear e membro do Conselho de Segurança da ONU; e também para a nossa seção alemã, uma vez que a base de Ramstein é o centro de comando de todas as operações da Otan na Ucrânia.

2 – Em todos os países nos quais há bases militares da Otan (e há muitas, nomeadamente na Alemanha, Espanha, Itália, Grécia, Romênia e Bélgica), combatemos pelo fechamento e desmantelamento imediato dessas bases, na linha do que foi decidido no Encontro Operário Europeu de Madri contra a Cúpula da Otan, realizado em 25 de junho de 2022.

3 – Consideramos que o interesse de todos os povos da Europa, a começar pelo povo ucraniano, passa pelo desmantelamento da Otan.

4 – Como demonstraram os estivadores na Itália, combatemos pelo fim imediato do envio de armas para a Ucrânia.

5 – Em todos os países, exigimos o fim imediato das sanções, não só as que atingem o povo russo, mas também as que atingem duramente os povos da Venezuela, Cuba, Irã e China. Essas sanções – que desorganizam, em particular, todo o sistema de produção de energia – já colocam em grave perigo diversos setores essenciais da indústria europeia (alumínio, siderurgia etc.), o setor de transportes, e ameaçam as condições de trabalho e de existência de centenas de milhões de trabalhadores e jovens em todos os continentes.

6 – É preciso parar essa guerra já, o que exige um cessar-fogo imediato.

7 – Essa luta exige, igualmente, o restabelecimento de todas as liberdades democráticas e dos direitos sindicais e políticos tanto na Rússia como na Ucrânia, contra a política de Putin e de Zelenski, que na Rússia torna quase impossível a atividade dos sindicatos, e que na Ucrânia aproveita a guerra para atacar a legislação trabalhista.

8 – Nem um centavo para os orçamentos de guerra! Restabelecimento imediato dos orçamentos para a saúde, a educação etc. Rejeitamos os apelos à “união nacional”, e aos “sacrifícios” exigidos pela economia de guerra. Combatemos, em cada país, os governos que usam a guerra como pretexto para fomentar a inflação, a alta de preços e o empobrecimento do povo.

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