Interesses imperialistas por trás do golpe

O impeachment e os objetivos das multinacionais no mercado brasileiro

É possível que boa parte dos bastidores das articulações golpistas só venham à tona daqui a anos. No golpe de 1964, ainda que numa situação diferente da atual, o envolvimento do governo estadunidense e sua agência de inteligência, a CIA, era evidente, mas a comprovação com documentos só surgiu depois.

O que não se pode esconder são os interesses econômicos e políticos do imperialismo no Brasil e na América Latina. No ano passado, telegramas confidenciais revelados pelo site Wikileaks (organização que publica, em seu site documentos e informações confidenciais, vazadas de governos e empresas, nota do editor) já haviam indicado que o Departamento de Estado dos EUA acompanhava a movimentação da Odebrecht. Nada a ver com qualquer preocupação com propinas, mas sim com a perda de fatias do mercado brasileiro diante do crescimento de negócios da empreiteira verificado no governo Lula.

Com esse objetivo, as embaixadas dos EUA em Angola, no Equador e no Panamá monitoraram viagens de Lula, em 2007 e 2008, e a diplomacia estadunidense apontou suspeitas de corrupção em obras da empresa em diversos países.

As revelações de Edward Snowden(1) de 2013  mostraram que a NSA – sigla em inglês da Agência de Segurança Nacional dos EUA – monitorava a presidente Dilma Rousseff e a Petrobras. Não é preciso ir muito longe para ver que a intenção última é retirar da estatal brasileira o importante mercado de exploração petrolífera.

E as multinacionais estadunidenses de petróleo têm fiéis colaboradores no Brasil, como o senador José Serra (PSDB), autor do projeto de fim do regime de partilha do Pré-sal. Serra, um dos paladinos do impeachment, já havia declarado em 2009 a uma representante da Chevron – multinacional estadunidense –  que, se vencesse a eleição presidencial de 2010, reverteria a regra da partilha.

Investigação nos EUA

Na Lava Jato, o envolvimento dos procuradores do Ministério Público Federal (MPF) com autoridades dos EUA mostra que há uma articulação entre eles. Segundo o jornal “Valor” (4/4), o Departamento de Justiça estadunidense (DoJ, na sigla em inglês) investiga a utilização do sistema financeiro dos EUA para o pagamento de propina no Brasil. A reportagem afirma que a investigação tem o apoio da força-tarefa do MPF que atua no Paraná e que ao menos dois delatores da Lava Jato viajaram entre janeiro e fevereiro aos EUA para responder ao DoJ. O objetivo, segundo jornal, “é traçar eventuais conexões americanas com os desvios da Petrobras”.

A revista “Época” (1/4) revelou mais sobre essa colaboração. Segundo a publicação, o DoJ entregou à força-tarefa da Lava Jato dados da caixa de e-mails de Alexandrino Alencar, ex-diretor da Odebrecht. Detalhe: os dados haviam sido apagados e foram recuperados graças a uma investigação do órgão estadunidense.

Se os interesses imperialistas estão razoavelmente claros, como são arregimentados os seus agentes brasileiros? O Judiciário do Brasil, que se manteve intocado mesmo durante a ditadura, validando os atos dos generais, é um campo fértil para essa cooptação, bem como o MPF.

O jornal “The Washington Post” (9/3), numa matéria sobre Sérgio Moro, registra que o juiz, em 2007, “participou de um curso de três semanas para os potenciais líderes patrocinados pelo Departamento de Estado dos EUA”. Potenciais líderes – segundo o governo dos EUA!

Outro telegrama do Wikileaks informa a respeito de um seminário de seis dias, organizado pelo consulado dos EUA no Rio de Janeiro, em 2009, sobre “crimes financeiros ilícitos”. Participaram juízes, procuradores federais e agentes da Polícia Federal, entre outros. Um dos palestrantes foi Moro.

O relato oficial informa: “A conferência demonstrou claramente que o setor judiciário do Brasil está muito interessado em se engajar mais proativamente na luta contra o terrorismo, mas carece de ferramentas e treinamento para engajar-se com eficácia. Atualmente, a abordagem mais efetiva para encarcerar suspeito de terrorismo é acusar o suspeito pela prática de algum outro crime que lhe será atribuído, como tráfico de drogas ou lavagem de dinheiro”. Prender sob a acusação de um crime, para chegar a outro. Essa é a lição dada pelos EUA aos juízes e policiais brasileiros.

Desestabilização planejada

Depois de estabelecer laços diretos com o governo dos EUA, não é surpreendente que o MPF se comporte como se não devesse satisfações a ninguém no Brasil. O procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima, integrante da força-tarefa da Lava Jato, em palestra na Câmara Americana de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham), em São Paulo, afirmou: “Em um país com instituições sólidas, a troca de governo não significa absolutamente nada. Quero crer que nenhum governo no Brasil signifique alterações de rumo no Ministério Público, no Judiciário, na Polícia Federal”. Ou seja, ninguém deve mexer com eles.

Tem razão Laymert Garcia dos Santos, professor da Unicamp, que, num texto divulgado no começo de abril, indaga a quem interessa a “desestabilização planejada e rigorosamente executada”. Laymert diz: “A desestabilização visa a inviabilização do Brasil como país. Mais ainda: a estratégia nem parece ter sido elaborada aqui, na medida em que repete e retoma métodos, procedimentos e tecnologias jurídicas, policiais e políticas do terrorismo de Estado norte-americano, em sua guerra contra os países ‘inimigos’, principalmente aqueles que detêm soberania em termos de energia e que, por isso mesmo, precisam ser ‘neutralizados’. A estratégia busca criminalizar o governo Dilma, Lula, o PT e todos aqueles que resistem à implementação da agenda neoliberal e neocolonial, equiparando-os a ‘terroristas’, que precisam ser eliminados da cena política”.

Cláudio Soares

(1) Edward Snowden: ex-administrador de sistemas da CIA e contratado da NSA foi quem tornou públicos detalhes de vários programas que constituem esse sistema de vigilância (nota do editor)


1964: semelhanças e diferenças

Diante da atual ofensiva golpista, são feitas muitas comparações com 1964, com a ressalva de que, naquele momento, o golpe foi desferido a partir do aparelho militar enquanto, hoje, procura fantasiar-se com uma roupagem “institucional”.

Entretanto, a situação nacional e internacional é inteiramente outra. Hoje, um amplo movimento se espalhou pelo país, a partir da palavra de ordem “Não vai ter golpe! ”. A CUT é uma central sindical que organiza os trabalhadores nacionalmente e está firme nessa mobilização. Diversas outras entidades e partidos, entre os quais o PT, jogaram-se no combate para barrar o impeachment.

Em 1964, praticamente não houve resistência organizada porque a política do principal partido da classe trabalhadora de então, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), era um obstáculo para isso. Como organização stalinista, o PCB recusava-se a abrir uma perspectiva de organização para as amplas massas. No terreno sindical, aliava-se aos pelegos e controlava organismos intersindicais de cúpula, como o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT).

Um panfleto da UNE, de 1964, denunciava o golpe em curso e afirmava que era necessário “organizar o contragolpe”. Mas como? Segundo o panfleto, isso significava “unirem-se os operários em seus sindicatos, esperando palavra de ordem do CGT” e “aguardarem os estudantes a palavra de ordem da UNE”. Os operários esperaram, os estudantes aguardaram, mas nada foi organizado – nem greve geral, nem medidas amplas de reação. Dessa vez, está sendo e será diferente.


 

Artigo publicado na edição nº 784 do jornal O TRABALHO de 14 de abril de 2016.

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