Ken Loach: “guerra de classes no Labour Party”

O cineasta britânico fala sobre a situação no Partido Trabalhista

Em entrevista à rede alternativa DDN, o cineasta Ken Loach, diretor de filmes como “Terra e Liberdade” e “Eu, Daniel Blake”, expõe de forma lúcida o que se passa no Partido Trabalhista britânico (Labour Party), num momento agudo de crise do governo conservador de Bóris Johnson. Abaixo trechos.

“A democracia morreu no Labour Party (LP). Starmer (seu atual líder) foi transformado em Stálin para controlar a máquina partidária, atropelando princípios e regras legais para expulsar adversários. Da mesma forma que quando Trotsky foi removido das fotografias, Jeremy Corbyn é extirpado da política trabalhista. Mais de 150 mil filiados deixaram o LP por isso. A mídia faz campanha para que a esquerda seja expulsa pela direita partidária, a qual representa os interesses da classe dominante. Essa direita do LP é o principal obstáculo a mudanças no país. Maior ainda que os Tories (partido conservador), pois nos impede de enfrentar o verdadeiro inimigo.

Há uma guerra de classes dentro do LP. Quando Corbyn tornou-se líder, um programa ligado aos interesses da classe trabalhadora foi proposto: investimento público, coletivização de propriedades, direitos sindicais, fim e reversão da privatização em serviços públicos, particularmente no NHS (Sistema Público de Saúde).

O sistema julgou isso inaceitável, pois precisa de um LP que, quando for necessário, mude a cara do governo preservando os interesses da classe dominante. Em breve expirará a utilidade de Johnson, pois é um bufão que não está à altura do cargo.

O povo vai exigir mudança e será preciso um novo rosto.

Mudar a cara do governo para não mudar nada
“Assim, é essencial que o LP não desafie esses interesses. Corbyn representaria tal desafio; por isso os ataques impiedosos que sofre da mídia.

Starmer quer um partido sem ativistas militantes para mostrar às classes dominantes que não vai mudar nada…

O ódio e a insatisfação vêm se acumulando nas regiões pobres do país e podem se transformar em apatia, cinismo, alienação. Há um grande vácuo político. E sabemos pela história: se a esquerda não articula as questões que afligem essas pessoas, a direita o fará. Estamos vendo elementos disso: bairros e regiões operárias tradicionais de eleitores do LP votaram nos conservadores nas últimas eleições.

Lançar de imediato um novo partido seria suicídio. Precisamos de um movimento de toda a esquerda, dentro e fora do LP.

Seus parlamentares socialistas que sobraram devem se preparar para o confronto. Um movimento que se prepare para estar pronto a se tornar um partido quando for a hora certa.

Os sindicatos têm um papel chave para unificar a esquerda e representar os interesses independentes da classe trabalhadora.

É um momento crítico e não podemos perder esta oportunidade.

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