Lula acerta na questão do aborto

É quase certo que você conheça pelo menos uma mulher que já tenha feito aborto. Um estudo estimou que uma em cada cinco mulheres com menos de 40 anos, moradoras em regiões urbanas no Brasil e alfabetizadas já tinha interrompido uma gestação.

Mas, apesar desse número, são grandes as chances que você não saiba quais conhecidas, amigas ou familiares fizeram aborto. Isso porque, apesar do levantamento mostrar que a interrupção é feita por mulheres de todos os credos, classes sociais, idades, raças, mães de outros filhos ou não, todas têm em comum o fato de que precisam fazer isso de forma clandestina, sem o apoio necessário. A não ser o apoio de outras mulheres que, também secretamente, conhecem uma forma de realizar o procedimento. Afinal, aborto no Brasil é caso de polícia.

Na maioria das vezes, a interrupção é realizada de forma insegura, precária, principalmente se a mulher for pobre e negra.

81 mil mulheres foram atendidas pelo SUS por complicações de abortos malsucedidos, provocados ou espontâneos, no primeiro semestre de 2020.

Aborto clandestino é a 4ª causa de morte
Lula foi preciso ao afirmar – independentemente de suas opiniões e crenças pessoais – que o aborto é “um direito da mulher”. Que “deveria ser transformado numa questão de saúde pública e todo mundo ter direito e não ter vergonha”. E que, como Chefe de Estado, teria de “cuidar para que todos sejam tratados dignamente pela saúde pública”.

Uma questão que marca a vida de uma parcela tão grande da população, e que todos os anos vitima inúmeras mulheres, jovens e até crianças (o abortamento é, pelo menos, a 4ª causa de morte materna no país) é ou não importante para se fazer um debate político honesto com o povo, inclusive no período eleitoral?

Para alguns ditos de “esquerda” ou “progressistas”, a vida das mulheres pode esperar. Flávio Dino, por exemplo, declarou: “que a legislação brasileira não pode ser mexida nesse aspecto”. E, coerente com o fato de que defende que o aborto continue sendo caso de polícia, ele afirma que é um debate legítimo, mas para outra hora… um dia, quem sabe, vão nos deixar falar do assunto.

Falar sobre o assunto nunca vai ser conveniente. Em qualquer momento, será uma batalha, será preciso coragem.

Um programa avançado, de defesa da vida das mulheres, que inclua a legalização do aborto, deveria ser abraçado pelos candidatos do PT ao Congresso. A quem mais cabe a tarefa de pautar essa questão?

É fato que Lula e Dilma quando no governo federal poderiam, como a bancada petista de parlamentares, ter aberto esse debate. Não o fizeram. Mas está em tempo, como está em tempo tomar ainda uma série de medidas necessárias. Que bom que Lula está fazendo o debate da legalização do aborto agora. Lutaremos para ir até o fim.

Priscilla Chandretti

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