O que o PT tem a dizer?

A legítima defesa é exigir de Dilma tirar Levy e sua política

A Executiva Nacional do PT reunida dia 17 fez o contrário do que devia: apoiou o novo pacote de “ajuste”, com a única ressalva: “falta de diálogo prévio”. Ressalva que, a única outra entidade representativa que apoiou em nota o pacote – a Federação Nacional dos Bancos – não se deu ao trabalho. Talvez porque Levy está lá.

A nota de Rui Falcão chega ao disparate de dizer que “prevaleceu não sacrificar os programas sociais”. Um dirigente alinhado explicou: “virei governista porque não dá para defender Dilma com ‘Fora Levy’, o povo não entende, temos que recuar para salvar o governo”.

É, complicado, é verdade. Mas, o povo entende de que serve salvar Dilma, para continuar a desastrosa política de Levy!? A julgar pelos 7% de popularidade, isso não entende mesmo.

A maioria da Executiva estava assustada, alguns perto do pânico, com a “marcha batida ao impeachment” na Câmara. A conclusão era não criticar, senão Dilma cai pela “relação de forças”. Um erro que ignora aonde se mede a verdadeira relação de forças, que não é nesse Congresso, mas nas ruas, à condição de mobilizar a força social que elegeu Dilma no 2º turno, cada vez mais difícil com essa política.

A resolução foi adotada por 11 contra 4 votos (Mensagem, Articulação de Esquerda e Militância Socialista), num projeto que corretamente denunciava a “opção do governo por um ajuste recessivo”, mas era fraco nas conclusões, pois falava de passagem do superávit primário e não localizava o papel de Temer e do PMDB, criticando em geral “as diferentes frações da classe dominante”.


Conselho Consultivo “chuta o balde”

Não durou quatro dias a linha genial da Executiva!

Dia 21 era a 1a reunião do Conselho Consultivo da Presidência do PT criado por decisão do 5o Congresso. Composto por Lula e outros ex-dirigentes, lideranças, intelectuais petistas e amigos do PT, como conselho não delibera, é tudo encaminhado ao Diretório.

A imprensa de plantão resumiu bem o teor a maioria das falas. Conselho do PT ataca medidas de Dilma em primeira reunião”, foi a manchete de “O Globo” de 22 de setembro.

A fala mais clara e contundente foi de um intelectual não-filiado, mas engajado: “a solução é institucional, o presidente do PT deve ir lá dizer para Dilma mudar de política econômica. E se não mudar? Tem que passar para a oposição. Não vou jogar fora metade da minha vida que passei lutando pelo projeto e deixar esse legado para os netos.”

É uma situação de limite que se aproxima. “Time que perde, faz gol contra e ainda agride a torcida não dá”, disse uma liderança responsável.

Há testemunhos de que já chegaram à presidente propostas de mudança na economia – juros, cortes, credito e investimento etc. – assim como o que se diz nas fábricas – “mentira e traição”.

Alguma das principais lideranças do PT dizem que “talvez a ameaça de impeachment mude a presidente”.

A julgar por informações disponíveis na reunião, a decisão do presidente da Câmara, Cunha (PMDB), é por em votação o pedido de impeachment nas próximas semanas, se não na próxima. A conta de votos prováveis é preocupante e o rito, por maioria simples, já começa afastando a presidente para o processo.

Se, como parece, isso for verdade, para o PT – atacado de todos os lados, mas impedido de mobilizar para se defender e defender o mandato popular – chegou a hora de exigir em alto e bom som, face ao povo e ao governo, a mudança que começa pela derrubada dos juros e o fim do superávit!

João Alfredo Luna

Artigo originalmente publicado na edição nº 773 de 23 de setembro do jornal O Trabalho.

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