A mobilização no Irã continua, assim como a repressão. A mídia não para de promover, como solução para o povo iraniano, Reza Pahlavi, filho do xá derrubado em 1979, que abandonou o país em 1977 para se formar como piloto de avião em uma academia militar dos Estados Unidos. O filho do xá não voltou ao Irã desde então.
Nos Estados Unidos desde sua partida em 1977, o filho de Pahlavi cursou a universidade sem obter nenhum diploma. Finalmente, obteve um diploma por correspondência de uma universidade do sul dos Estados Unidos.
Quando os jornalistas lhe perguntavam como vivia naquela época, já que nunca havia trabalhado, ele respondia que recebia dinheiro de sua família e de apoiadores iranianos. Casou-se com uma iraniana rica, também refugiada nos Estados Unidos.
A mídia o apresenta como o herdeiro da “dinastia” Pahlavi, que não existe. Seu avô, que também se chamava Reza, era pobre e foi acolhido por seu tio após a morte de seu pai. Alistou-se no exército iraniano, nas “brigadas cossacas”, para sobreviver. Subindo na hierarquia, organizou um golpe de Estado em 1921 que lhe permitiu tornar-se o ditador que foi. Em 1925, destituiu o xá (termo que em farsi significa “imperador”) da dinastia Qadjar, que reinava desde 1788. O avô Reza autoproclamou-se assim o novo xá do Irã, mas foi afastado do poder “sob pressão dos aliados” em 1941, devido ao seu apoio a Hitler. Foi exilado na África do Sul. Seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, sucedeu-o como xá.
Em 1943, foi organizada em Teerã a conferência que reuniu pela primeira vez Churchill, Roosevelt e Stalin, que culminou na conferência de Yalta, em 1945. Desde a sua posse, o xá instaurou uma ditadura das mais ferozes, dando continuidade à política do seu pai, chamada de ocidentalização, em particular com a proibição absoluta do uso do véu pelas mulheres.
Naquela época, eram os britânicos que dominavam a extração de petróleo no Golfo Pérsico (do Irã à Arábia Saudita). Os americanos e o Kremlin propuseram-se a ganhar posições. Até então, apenas 8% das receitas do petróleo revertia para o Irã.
Em 1951, sob o efeito das mobilizações e da situação mundial, o primeiro-ministro Mossadegh, líder de um partido nacionalista iraniano, procedeu a
nacionalização do petróleo. Os britânicos protestaram violentamente, enquanto os americanos e os soviéticos tomaram outra decisão.
O partido Tudeh, stalinista e dependente de Moscou, estava muito implantado no Irã. Ele não apoiava Mossadegh, em nome da luta contra a burguesia iraniana (!), mas apoiava a proposta do Kremlin, que queria que os campos petrolíferos do norte fossem explorados pelos russos e os do sul pelos anglo-americanos.
Os Estados Unidos se oferecem, então, como mediadores e a CIA organiza secretamente um golpe de Estado que derruba Mossadegh (1953), abrindo caminho para que as empresas americanas assumam o controle do petróleo iraniano em detrimento das britânicas. Os Estados Unidos também se encarregam de reconstruir o exército iraniano e o país se torna, junto com Israel, o pilar dos americanos na região. Em 1957, o xá cria sua polícia política, a tristemente famosa Savak, que será extremamente violenta e brutal. Em 1972, segundo a Anistia Internacional, havia cerca de 200 mil detidos nas prisões da Savak, sem contar as prisões civis. A tortura era generalizada. A delação se estendeu às famílias, onde ninguém mais ousava falar. Não há números oficiais sobre o número de pessoas assassinadas pela Savak, mas estima-se que tenham sido 60 mil assassinatos políticos. No início dos anos 70, sob o efeito da crise do petróleo e suas consequências no Irã, desenvolveu-se uma mobilização operária entre 1973 e 1978. Greves eclodiram e os trabalhadores tentaram formar grupos independentes opostos aos sindicatos oficiais do regime. Múltiplas provocações, e em particular o assassinato de religiosos, permitiram ao clero xiita apresentar-se como um opositor decidido ao regime.
Em 8 de setembro de 1978, uma manifestação em Teerã foi reprimida sangrentamente, o que provocou uma mobilização maciça em todo o país contra o regime assassino. O partido stalinista Tudeh ficou do lado dos aiatolás, supostamente “anti-imperialistas”. Diante da revolução, que derrubou o regime do xá em janeiro de 1979, a burocracia do Kremlin interveio militarmente no Afeganistão para “restabelecer a ordem”. O objetivo era contrariar os avanços revolucionários no Irã (que tem uma longa fronteira com o Afeganistão, que por sua vez fazia fronteira com a URSS). Para as massas iranianas, o Kremlin aparece como hostil aos povos da região.
E o partido Tudeh emprega todos os meios para impedir a generalização dos comitês de trabalhadores que estão se constituindo nas fábricas e dos comitês de bairro, em nome de uma “frente anti-imperialista” com o clero xiita.
Será necessário um ano inteiro após a queda do xá para que os aiatolás, com a ajuda dos stalinistas, consigam transformar os comitês operários em comitês islâmicos, expulsando todos os dirigentes operários combativos, e transformar os comitês de bairro em comitês do imã (ver box). No entanto, essa militarização da classe operária e da população no Irã não permite ao clero xiita instaurar seu objetivo principal, a saber, um emirado islâmico. Ele é obrigado a se contentar com uma república, certamente islâmica, mas uma república ao fim e ao cabo – embora a pluralidade dos partidos continue sendo muito limitada, já que eles são obrigados a aceitar as leis islâmicas.
Apesar de tudo, em 1979, ocorreu uma verdadeira revolução popular no Irã que derrubou o regime monárquico pró-imperialista e rompeu suas relações com Israel.
E a lufada de ar fresco que isso representou na região para as massas, confrontadas com os regimes árabes reacionários, obrigou o imperialismo a reagir.
Após o fracasso de uma operação militar dos Estados Unidos no Irã, os imperialismos pressionaram Saddam Hussein, no Iraque, a atacar o Irã, em setembro de 1980, provocando uma guerra que terminou em 1988 e causou, segundo estimativas, entre 300 mil e 1 milhão de mortos no Irã e 200 mil no Iraque. Apesar de sua natureza reacionária, o regime dos aiatolás continua sendo um espinho para o imperialismo. Por isso, após fracassar militarmente em sua tentativa de derrubá-lo, o imperialismo instaura um sistema de sanções que atinge duramente não o regime, mas a população iraniana. É ela que hoje se rebela para garantir sua sobrevivência. É o povo iraniano, e somente ele, que deve decidir seu futuro, e certamente não Trump nem o genocida Netanyahu.
Lucien Gauthier
Os comitês revolucionários de 1979
No final de fevereiro, o movimento dos trabalhadores para criar organizações de luta, os “sovietes” (conselhos), ganha força em todas as fábricas. O regime tenta desvirtuar e frear esse movimento. As reivindicações dos trabalhadores, em geral, são altamente políticas. Eles querem que os conselhos eleitos controlem a produção, a abertura dos livros contábeis, etc. Os trabalhadores do petróleo exigem o controle da produção petrolífera, a anulação dos contratos, etc. O governo intervém em todos os lugares para impedir o desenvolvimento democrático das eleições.
Assim, Bazargan (primeiro-ministro) desloca-se a Ahwaz, onde participa na dissolução do “comitê de greve eleito” e estabelece um “conselho islâmico” cujos membros são mais “designados” do que eleitos. 59 dos 64 membros do conselho serão funcionários e diretores especialmente inclinados a aceitar as decisões da direção. Em outra fábrica (General Motors), o governo e as milícias intervêm no momento das eleições. O conselho é selecionado pela direção e pelo governo, e seus membros são, em sua maioria, operários e funcionários khomeinistas*. Em outras fábricas, os conselhos eleitos são os verdadeiros representantes dos trabalhadores. Nas fábricas onde pôde o governo tenta manter as antigas estruturas (sindicatos policiais) ou pede a seus membros que colaborem com o “conselho”. Dito isso, esses órgãos, às vezes realmente eleitos, às vezes impostos pelo “prestígio” do novo governo, tornam-se um meio para os trabalhadores levantarem a questão de sua organização. Mais tarde, em algumas fábricas, será levantada a reivindicação de novas eleições (mas é preciso dizer imediatamente que, na ausência de um partido revolucionário, o gigantesco movimento — desde o início da revolução — em direção aos conselhos eleitos não leva à sua centralização).
[…] Como as forças repressivas (exército e polícia) estão desarticuladas, o regime cria “comitês do imã” que logo passam a controlar os comitês de bairro. Estes últimos são cada vez mais depurados, com a exclusão dos elementos mais combatentes.
As pessoas dos bairros são substituídas por fanáticos khomeinistas e até mesmo por antigos agentes da Savak, formando todos eles a “milícia dos comitês”.
* Seguidores de Ruhollah Khomeini, líder do movimento islâmico a época, que se tornará o líder supremo Aiatolá Khomeini, de 1979 a 1989.
Trechos das reportagens de Salimé Etessam, publicadas entre fevereiro e dezembro de 1979, no periódico francês La Vérité

