Sobre a copa no mundo no Brasil

Com o objetivo ajudar na reflexão sobre os elementos que envolveram o evento Copa do mundo de 2014 incluindo as expectativas criadas, seu desfecho e sua relação com a estrutura do futebol brasileiro,  o leitor tem aqui os três artigos publicados no nosso jornal nas edições nº 749 (editorial), no nº 750 em artigo de Claudio Soares e no nº 751 com Lauro Fagundes.

Editorial do Jornal O Trabalho – edição nº 749 – 12 de junho de 2014

A foto (publicada nesta página do jornal – nota do editor) é o Brasil, um país desigual, que sedia a Copa de Futebol de um mundo desigual, organizada por empresa corrupta e autoritária, a FIFA.

Não foram os governos de Lula e de Dilma que criaram a desigualdade, mas o PT foi fundado e Dilma eleita para combatê-la. Entre outras razões, as greves se multiplicaram nas últimas semanas porque a exploração está muito longe de ter sido resolvida.

Por que a Copa da FIFA deveria ser uma prioridade no país?

Há sete anos se prepara a Copa. A Matriz de Responsabilidades, na versão 2010, previa gastos gerais de R$ 23,5 bilhões para 93 projetos originais. Mas as despesas acabaram em R$ 26 bilhões para apenas 81 dos projetos. E pelo menos R$ 1,4 bilhão é o custo para o Tesouro Nacional só até 2015 apenas em isenções fiscais e subsídios creditícios (o valor financiado é muito maior), segundo o jornal Valor (10.6.14).

Legado da Copa?

A “renda da Copa”, diz Jerôme Valcke, secretário da FIFA, “supera todas expectativas, chega a R$ 10 bilhões” ao preço de contratos temporários e trabalho precário, remoções forçadas e imposições da FIFA sobre a soberania nacional.

Por que então a surpresa com a queda da popularidade do desgastado evento? Joseph Blatter, presidente da FIFA, patético, pede apoio ao povo brasileiro. Seu vice, Jim Boyce, é mais claro: “O alvo das manifestações não pode ser a FIFA. Ela não é responsável. Quem deve ser alvo dos protestos é o governo” ( jornal O Estado de São Paulo também conhecido como OESP e Estadão; 06.06.14).

Muy amigo! Só mesmo o ministro Aldo Rebelo (PCdoB) para segui-los e cortejá-los em toda parte.

A ONG Anistia Internacional, apoiada na mídia, fez campanha para entregar ao Planalto 87 mil assinaturas contra o “abuso das polícias”, diz seu coordenador: “A proposta do documento é focar no governo federal”. Até o jornalista do Estadão nota que a ONG não cita governadores ou secretários estaduais de segurança que “têm defendido suas polícias, e são os superiores dos comandantes das tropas” ( jornal OESP 06.06.14).

Mas nem a Anistia nem o Estadão querem a desmilitarização das polícias, único meio de acabar com os “abusos”. Muito menos denunciam a criminalização dos movimentos, como na brutalidade do governador Alckmin e do Judiciário paulista – o PSDB aberto e o enrustido – contra o direito de greve dos metroviários. Nem a Anistia nem o Estadão querem tocar nas instituições!

Nas últimas semanas cresceu uma onda de greves, caiu a aprovação do governo federal nas pesquisas e subiu novamente o número dos que declaram que não têm candidato: são 30% a 4 meses das eleições, segundo o Datafolha, um recorde desde a volta das eleições diretas em 1989.

A insatisfação se mostra e tem razão de ser. Pelo menos, desde junho passado está claro que o superávit primário esmaga os serviços públicos. As greves neste setor são, cada vez mais, a única forma de conquista. Mas a presidente da República, pré-candidata a reeleição, tem a alternativa de lançar- se contra a desigualdade no campo e na cidade. Lançar-se a reformar o Estado de cabo a rabo que, já se sabe, ela sabe, passa pela reforma política…

Padrão FIFA: muitos lucros e corrupção

por Claudio Soares – jornal nº 750 de 9 de julho de 2014

Copa tem esporte, mas também grandes negócios

Às vésperas do final da Copa do Mundo, o Brasil nem de longe passou pelo caos anunciado por falsos profetas à direita e à extrema esquerda. O movimento “Não vai ter Copa” limitou-se a protestos esvaziados. Por outro lado, o futebol é um esporte, mas é também fonte de enormes lucros para a FIFA e empresas multinacionais. É importante refletir sobre o balanço:

• Gastos públicos: o alardeado “escândalo” deve ser visto pelos dados objetivos. As estimativas de gastos com a Copa chegam a quase R$ 30 bilhões (incluindo obras não exclusivas). O Tesouro Nacional desembolsará também R$ 1,35 bilhão em incentivos fiscais e creditícios. Os R$ 8 bilhões aplicados em estádios, por exemplo, não saíram do orçamento federal, mas de empréstimos do BNDES e de orçamentos estaduais.

Como os empréstimos serão pagos ao BNDES, o que o banco gastará é apenas o equivalente à diferença entre os juros subsidiados que cobra e os juros do mercado. É legítimo perguntar se isso era prioritário, mas não manipular números para falsas conclusões. Muitos críticos dos gastos na Copa se calam sobre o escândalo do valor sugado diariamente pelos especuladores por meio da dívida pública.

Somente entre 2010, quando começaram as obras dos estádios, e abril de 2014, o gasto público com os credores atingiu R$ 975 bilhões – o equivalente a 33 Copas. O problema real é esta dívida!

• Padrão FIFA de lucratividade: a FIFA impõe mudanças na legislação do país para abrigar a Copa, como a liberação da venda de bebidas alcoólicas (do patrocinador!) nos estádios. O governo federal submeteu- se a essas exigências. A FIFA estima que lucrará no Brasil até R$ 10 bilhões – na África do Sul (2010) havia sido R$ 7 bilhões e na Alemanha (2006), R$ 4,4 bilhões. Parte disso vem de outras medidas como o uso de “voluntários” para trabalhar de graça nos jogos.

• Padrão FIFA de parcerias: as empresas parceiras também não têm do que reclamar. A estadunidense Nike (patrocinadora de dez seleções) e a alemã Adidas (de nove) contabilizam lucros recordes com o futebol. Para elas, a Copa não poderia ter sido melhor.

• Padrão FIFA de negociatas: segundo a BBC, nada menos que 44% dos ingressos da Copa são vendidos pela FIFA em esquemas paralelos. No fechamento desta edição desenvolvia-se uma ação da Polícia Civil do Rio de Janeiro que descobriu esquema milionário de cambistas operado pela empresa Match, ligada ao sobrinho do presidente da FIFA e detentora da exclusividade para venda de pacotes dos jogos. O esquema rendia R$ 2 milhões por jogo e era comandado desde o Hotel Copacabana Palace, a sede da FIFA no Brasil durante a Copa.

Copa, futebol e política

Lauro Fagundes – jornal nº 751 de 23 de julho de 2014

Até no futebol é inseparável a mudança nas instituições do país

Contrariando a campanha que a mídia, a serviço da oposição tucana, fez de que a Copa no Brasil seria um fracasso organizativo e que a seleção em campo seria a salvação, o resultado foi quase o inverso: não houve problemas de organização e houve sucesso de público, apesar dos ingressos caríssimos e da pilhagem das multinacionais parceiras da FIFA, com lucros bilionários que não ficam no país, enquanto a seleção afundava na semifinal nos 7 a 1 contra a Alemanha.

A implosão da seleção, “uma estrutura [que] cedeu a pressões que ela não pôde mais suportar”, na expressão do professor José Miguel Wisnik, abriu um debate sobre a necessidade de uma reforma profunda na administração e organização do futebol brasileiro, reclamada por cronistas esportivos, atletas ligados ao Bom Senso FC e políticos. O futebol, que há muito virou um grande negócio, está imerso numa situação mundial em que, para sobreviver à sua própria crise, o sistema imperialista busca rentabilizar o capital, não na produção de bens que atendam às necessidades dos povos, mas em outras esferas, como no entretenimento, onde a paixão popular pelo futebol virou fonte de lucros bilionários.

Lei Pelé aumentou sujeição ao mercado

No Brasil não é diferente. Após a adoção da Lei Pelé (1998), então ministro de FHC na época, em favor do mercado, acabou a “Lei do Passe”, criticada por fazer dos jogadores “escravos dos clubes” dirigidos por cartolas corruptos. Mas a Lei Pelé não resolveu o problema e deixou os jogadores na mão de empresários, que vendem garotos para clubes europeus de segunda linha que depois revendem a grandes clubes. Tal e qual ocorrem nos mercados controlados pelas multinacionais, não deve haver intervenção do Estado, nem democracia, nem interesses coletivos.

Aécio Neves, herdeiro de FHC, ao criticar Dilma de querer criar uma “Futebras”, só confirma esse ponto de vista. A “autonomia” da FIFA e da CBF serve para escapar do controle do poder público e se transformar em máfias ligadas às multinacionais.

As propostas do Bom Senso FC como: calendário, formato de campeonatos, ”transparência nas finanças” dos clubes e ampliação do quadro de eleitores na CBF, hoje reduzido a 47 votos (as 27 federações estaduais e os 20 clubes da série A), podem ser úteis, mas não transformarão estruturalmente a situação.

Sim, o governo pode e deve intervir na reestruturação do futebol brasileiro através de medidas e leis que impeçam a exportação precoce de “pé de obra”, democratizem a gestão de clubes e protejam os atletas profissionais.

Mas uma verdadeira reforma nas estruturas do futebol é inseparável da reforma profunda nas instituições políticas e econômicas do Brasil que libertem a nação da dominação das grandes corporações multinacionais.

 

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