Ato Internacionalista às vésperas da greve geral na França

30 de novembro, 15 horas. A sala estava tomada por militantes, jovens, “coletes amarelos”, sindicalistas, para ouvirem dez oradores, engajados na luta de classes em seus países e presentes na reunião do Comitê Internacional de Ligação e Intercâmbio (CILI).

Apresentados por Jérôme Legavre, do POI francês, sucederam-se na tribuna: Youssef Tazibt do PT da Argélia; Abhishek Singh, do Sindicato dos transportes (AICCTU) de Nova Déli, Índia; Javier Márquez, da Confederação Bancária e do movimento “Não + AFPs” do Chile; Elie Domota, da UGTG de Guadalupe; Luís Eduardo Greenhalgh, do PT do Brasil; Cornelia Matzke, militante de Leipzig (ex-RDA) em 1989, Alemanha; Khadije El Husaini, do Movimento pelos Direitos Democráticos do Líbano; Awad Abdelfatah, coordenador da campanha por um só Estado democrático da Palestina; Moustapha Guitteye, da União Nacional dos Trabalhadores (UNTM) do Mali; e Melina Sauger, sindicalista, pelo Comitê Nacional de Resistência e Reconquista (CNRR) da França, encerrando o ato em meio a cantos vindos da sala, num clima de preparação da greve geral “a partir do 5 de dezembro” contra a “reforma” das aposentadorias do governo Macron, refletindo a posição de muitas assembleias sindicais que adotaram essa linha.

Abaixo, trechos de três dessas intervenções:

Youssef Tazibt (Argélia)
“Desde a prisão onde está há sete meses, Luísa Hanune os saúda e deseja pleno sucesso a este Ato. Ela está condenada arbitrariamente a 15 anos de prisão por um tribunal militar, com o único objetivo de privar o PT de sua secretária geral e privar a revolução em curso no meu país de uma militante que consagrou 40 anos de sua vida ao combate pela soberania nacional, pela democracia, os direitos das mulheres, pelos quais ficou seis meses presa em 1983, pelo reconhecimento da língua tamazig (berbere), pela preservação das conquistas da independência, pelos direitos dos trabalhadores (…). A Argélia vive um momento histórico de uma autêntica revolução, o que é uma expressão da situação mundial. Em toda parte, os povos não suportam mais e querem viver de seu trabalho. Seja no Chile, Iraque, Catalunha, França, cada um na sua língua, dizem: “Caiam fora todos!” (…). Dizemos desta tribuna ao Parlamento Europeu : Por que te metes com a Argélia? Estás com miopia, não vês o que se passa na França, com a repressão selvagem aos ‘coletes amarelos’, na Espanha, com as legítimas reivindicações do povo catalão, antes de pensar na solução para o povo argelino? (…) Desejo pleno sucesso à greve geral de 5 de dezembro na França! Dizemos aos argelinos, Assembleia nacional constituinte e soberana, que deve ser a emanação da vontade de milhões, e somos escutados cada vez mais. Viva a solidariedade internacional entre os povos! Liberdade para Luísa Hanune, Lakhdar Bouregaâ e todos os presos políticos, fim das perseguições contra Lula!”

Javier Marquez (Chile)
“Estou aqui porque os secundaristas decidiram saltar as catracas do Metrô em Santiago como forma de luta. Era 18 de outubro e a explosão social ocorreu. Um levante que não se deu por causa de 30 pesos, mas por 30 anos de abusos, tanto de governos de esquerda como de direita. O Chile despertou e hoje estamos na primeira linha para enfrentar a repressão e ajudar-nos mutuamente. Mais de 200 jovens perderam um olho, dois deles ficaram totalmente cegos. Há inúmeros casos de estupro de companheiras que continuam impunes. As mulheres chilenas, como em outras partes do mundo, participam ativamente e denunciam esses fatos. Acompanhamos os jovens que estiveram na vanguarda. A principal exigência que avançamos é a de uma Assembleia Constituinte, verdadeira, não algo que seja arranjado entre os poderes habituais. O povo chileno quer o direito à aposentadoria digna e pública, e não a miséria que os idosos recebem dos fundos privados; o mesmo para a Saúde, pois nossos doentes morrem nos hospitais por falta de atendimento; queremos uma educação gratuita e de qualidade, eterno combate de nossos jovens (…). A Unidade Social agrupa organizações sociais, sindicais, políticas e associações para enfrentar o sistema. Um combate que não é só do povo chileno, mas de todos os povos do mundo, pois temos diante de nós o mesmo inimigo neoliberal. Por isso saudamos todos os povos em luta, por isso exigimos a libertação de Luísa Hanune!”

Luis Eduardo Greenhalgh
“Há um ditado no Brasil, ‘é na hora do perigo que se conhece os amigos’. O PT, e em particular o companheiro Lula, fomos apoiados por um imenso movimento de solidariedade. Há dois anos, em Argel, eu era delegado na conferência presidida por Luísa Hanune. Ela própria propôs uma moção de solidariedade com Lula, que naquele momento não estava preso, mas era perseguido pela justiça. Depois que Lula foi julgado de forma manipulada, condenado e preso, recebemos dos companheiros do Acordo Internacional centenas de manifestações de solidariedade exigindo a sua libertação. Jamais esqueceremos disso! Mais uma vez, obrigado companheiros! Permitam-me dirigir-me ao companheiro Youssef: a solidariedade que o teu partido, o PT da Argélia, deu prova em 2017, agora somos nós, o PT do Brasil e o próprio Lula, que manifestamos a mesma solidariedade na campanha pela libertação de Luísa Hanune (…). Uma palavra sobre o que fizemos nesses dias de segunda reunião do CILI. Delegados de 55 países de quatro continentes, encontramos em toda a parte a mesma situação: desemprego, trabalho precário, privatização da Saúde, da Educação, ataques aos direitos trabalhistas e democráticos. Mas, ao mesmo tempo, a resistência dos povos, da classe trabalhadora, novas direções, novos movimentos como os ‘coletes amarelos’ aqui na França, que o poder não compreende. Saímos dessa reunião do CILI com a certeza que não existe derrota definitiva quando os povos estão em luta pela democracia, pela justiça social e pela paz (…). Transmitirei tudo isso, a solidariedade, a acolhida, diretamente ao Lula. Resumo numa frase: ninguém solta a mão de ninguém, combatemos o bom combate e venceremos. Lula Livre, Luísa Livre!”
Mensagem de Hong Kong
Impossibilitado de ir a Paris para a reunião do CILI, o estudante Adrien enviou um vídeo para explicar a situação em Hong Kong (trechos abaixo):
“Em 12 de novembro, a tropa de choque entrou na Universidade de Hong Kong, violando sua autonomia e espalhando o terror com 3 mil bombas de gás e 400 balas de borracha disparadas. O povo já estava irritado com tais atos da polícia e com a interferência do Exército de Libertação Popular (ELP), que legalmente só poderia agir a pedido do governo local ou de ordem do governo chinês (…). A situação arrisca transformar-se num massacre sangrento, como durante a repressão na Praça da Paz Celestial há 30 anos. A questão é o modo como o governo lida com as questões sociais. O governo de Hong Kong e o Partido Comunista chinês pensam que eliminar a pessoa que vê o problema equivale a resolvê-lo. Mas, recorrer à força é inútil para calar a voz do povo.”