Revolução em curso: “A Argélia não será monarquia nem caserna”

REUTERS/Ramzi Boudina

Outra sexta-feira e milhões de pessoas foram às ruas em toda a Argélia.

Elas reafirmaram a exigência de fim do regime: “Fora todos”. Diante das manobras, notadamente do chefe do Estado-maior do Exército, surgiu uma nova palavra de ordem: “A Argélia não será uma monarquia, nem uma caser­na!”. As forças do regime, com o apoio do imperialismo, tentam uma transi­ção que assegure a sua continuidade, numa eleição presidencial em 4 de ju­lho. Para isso o regime chamou todos os partidos a uma conferência sobre a “transição”. O Partido dos Trabalhado­res anunciou que não participaria. No dia 22 de abril ela foi cancelada por falta de participantes, o que expressa a decomposição do regime.

No dia 17 de abril, convocados por algumas instâncias da UGTA (União Geral dos Trabalhadores), milhares de sindicalistas se reuniram em frente à sua sede em apoio à mobilização para destituir o regime e, portanto, também o secretário da UGTA, que é parte integrante dele.

Leia abaixo a reportagem do ato publicada no órgão do PT, fraternité!”, na qual sindicalistas ligam as reivindicações democráticas às exigências econômicas e sociais. De fato, numerosas greves ocorrem nos quatro cantos do país, em indústrias importantes e pequenas empresas. O diário online “TSA” revela preocupa­ção pelo “pior” que pode ser provo­cado pelas autoridades: “O menor dos riscos seria ver as ruas optarem por outros meios de luta, que nenhu­ma força poderá reprimir. O maior, ao seu alcance, é a greve geral.”

Em 22 de abril, por ordem do Estado-maior, houve uma série de prisões seletivas de empresários e políticos para desviar a exigência de fim do regime e, ao mesmo tempo, ameaçar.

Em 23 de abril, novamente milha­res de estudantes saíram às ruas. O coletivo pela reapropriação da UGTA, que chamou o ato na sede da central, lançou um chamado a todos para manifestarem-se em massa em Argel no 1o de Maio. Os sindicatos autôno­mos anunciaram se juntar ao apelo.

De Informações Operárias, Paris, 25 de abril

17 de abril, milhares responde­ram ao chamado de instancias sindicais regionais e da Federação da indústria mecânica da UGTA.

Diante da burocratização da central sindical e a política de sua direção, um movimento de recomposição há muito tempo latente, veio à tona com o processo revolucionário de 22 fevereiro (o início das manifesta­ções – NdT). A faísca que provocou o incêndio foi a tentativa de impor o quinto mandato de Abdelaziz Boute­flika, sinônimo do agravamento das condições de vida da maioria.

O secretário-geral da UGTA, Sidi Saïd, tentou jogar um papel decisivo para impor aos trabalhadores o quinto mandato que consagraria a oligarquia. Suas ameaças aos trabalhadores que não votassem na eleição presidencial prevista para 18 de abril (mas abortada pelo povo), seu extemporâneo comício eleitoral em 24 de fevereiro, sua proximidade ostensiva com o governo e o ex-chefe do patronato, com o qual as­sinou em 2018 um vergonhoso acordo de retorno à política de privatização, acompanhado de medidas disciplinares contra sindicalistas honestos, criaram uma revolta sem precedentes.

Em 17 de abril, mesmo após apelos à dispersão, os manifestantes, insatisfei­tos, permaneceram por horas em fren­te a UGTA, ameaçando voltar todos os dias até a demissão do secretariado nacional da central.

O secretário geral da regional da UGTA de Béjaïa, Aziz Hamlaoui, ame­açou radicalizar:“se necessário, vamos ocupar todos os dias a sede da central sindical e convocaremos uma greve geral que paralisará o país”.

Gacem Djillali, empregado in­termediário, aposentado da Caixa Nacional da Poupança Popular (CNEP), após 39 anos de trabalho, com uma pensão equivalente a 3 salários mínimos, culpa a política injusta em vigor:

“Não estamos pedindo aumento de nossas pensões, mas uma redução de imposto de renda que corrói nossas aposentadorias. Não conseguimos mais satisfazer as necessidades elemen­tares de nossas famílias, cujos filhos estão muitas vezes desempregados”.

Boubakeur Samir, sindicalista de Alfapipe (tubos) que veio da região de Annaba: “Nossa grande preocupação é a em­presa estatal de petróleo (Sonatrach) que se recusa a nos atribuir contratos públicos. Os projetos são entregues no balcão de negócios aos oligarcas, incluindo o chefe do FCE (Fórum dos Chefes de Empresa-NdT) que montou uma empresa de tubos de petróleo. Ele ganha os projetos e não cumpre os prazos estabelecidos. Apesar da concorrência desleal, nossa empresa empregou 120 jovens em Annaba e 200 em Ghardaïa”.

Rahmane Amar, presidente do co­mitê de empresa de Alfapipe:  “Em vez do secretário-geral da UGTA defender os trabalhadores e as empresas públicas, ele passa seu tempo ajoelhado diante do governo, se esforçando para satisfazer o que o patronato deseja. Patronato, aliás, que recusa a criação de sindicatos de trabalhadores”.

Um trabalhador do setor têxtil (Al­faditex), província de Béjaïa: “Em nossa empresa o salário base está abaixo do salário mínimo nacio­nal. Nós não paramos de lutar para melhorar nossos salários, mas sem resultado até agora. Não temos tido apoio da central sindical”.

Madjid Djillali, sindicalista dos municipais (Zekri, província de Tizi-Ouzou): “Precisamos reto­mar o direito à apo­sentadoria antecipa­da após 32 anos de serviço e 50 anos de idade. Não entendo por que reter os tra­balhadores enquanto a população argelina é majoritariamente jovem. Comecei a trabalhar aos 17 anos e tenho 34 anos de serviço. Já contribui bastante (32 anos), por que continuar a contribuir anos ex­tras sem qualquer impacto sobre minha futura aposentadoria? As autoridades afirmam que não há dinheiro, mas o país é rico. Ele é pilhado pelos homens de negócios do poder, os franceses e os americanos”.

Touahri Rezig: sindicalista da Edu­cação Nacional (Béjaïa). “O secretário-geral da UGTA acaba de suspender ilegalmente os quatro secretários-gerais das regionais que convocaram esta manifestação, porque exigem a independência da central. Viemos aqui dizer a ele: ‘você e a cama­rilha do seu secretariado nacional é que terão que sair!’ A UGTA é um sindicato histórico criado no calor da guerra de libertação nacional por homens dignos, como seu primeiro secretário-geral, Aïs­sat Idir, assassinado pelo colonialismo francês. Nós somos dessa linhagem de revolucionários e não dessa a que pertence Sidi Saïd e seus amigos, que se movem por interesses mesquinhos”.