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CORRENTE O TRABALHO DO PT

Salvação do PT é seguir a militância

28 de janeiro de 2017
militancia do pt

 

Paulo Moreira Leite

27 de Janeiro de 2017

Na fase mais difícil de uma crise de identidade que pode custar sua sobrevivência surgiu uma luz no fim do túnel do Partido dos Trabalhadores.

Em conversas discretas entre dirigentes graduados e lideranças históricas, cresce a convicção de que a situação tornou-se tão dramática e desafiadora que não há alternativa fora dos fundamentos do próprio PT. Desse ponto de vista, cresce o argumento de que a bancada parlamentar deve ceder à vontade expressa da  militância do partido e recusar toda ideia de uma acordo para votar em Rodrigo Maia em troca de uma posição na Câmara de Deputados.

O ponto de central desse argumento é fácil de compreender. A partir da noção frequentemente esquecida de que se trata de um partido que nasceu da luta social antes de eleger deputados e senadores, organizou lideres do povo antes de se tornar Poder, o PT precisa demonstrar — sim, há motivos para dúvidas! — quem é que manda em sua orientação, quem define suas prioridades e participa de suas alianças.

Este é o ponto em discussão. Antes de permitir que uma divergência, por mais profunda que seja, se transforma numa briga de rua e disputa irreconciliável, produzindo danos irreversíveis e traumas sem cura, é preciso resolver esta questão anterior, que sempre teve um lugar importante nas decisões do partido. Trata-se de decidir — e isso é política em maior grau — quem manda no PT, quem define seus núcleos de poder e toma as decisões mais importantes. Estamos falando da democracia interna, tão importante e tão esquecida, que precisa ser revigorada.

A partir daí, o debate permite colocar as diferenças em seu devido lugar, evitando simplificações que só ajudam a aprofundar uma divisão desnecessária, que interessa aos adversários dos trabalhadores, que necessitam destruir o PT para implantar um Estado mínimo incompatível com organizações de classe estruturadas. Um partido dividido, com militantes desmotivados e desmoralizados constitui  o adversário ideal para projetos socialmente criminosos de destruição da Previdência Social e desmonte da CLT. Também tornará mais complicada qualquer tentativa de resistir aos absurdos da Emenda Constitucional que limita os gastos públicos. Nesta conjuntura, a responsabilidade da militância é particularmente enorme e seu espaço não pode ser minimizado.

Heterogêneo e diversificado desde seu nascimento, o PT cresceu e se tornou um partido capaz de vencer quatro eleições presidenciais porque foi capaz de responder a cada mudança de conjuntura sem abrir mão de princípios, fazendo um governo que, apesar de limites e erros cometidos, marcou a história do país. Seu passado contem ensinamentos que não podem ser desprezados.

A experiência recomenda que é preciso deixar de lado toda formula pronta e acabada para uma boa ação política. Os erros e desastres estão sempre à espreita. O cretinismo parlamentar pode levar ao abandono da população a própria sorte, enquanto deputados e senadores se perdem em futricas e armações que nada significam para as grandes maiores. Já a doença infantil do esquerdismo pode produzir ao mesmo resultado, mesmo que empregue uma retórica diferente. Da mesma forma, os métodos destrutivos de discussão, uma herança dos piores partidos de esquerda, devem ser evitados e mesmo denunciados, pois nada substitui o debate leal sobre cada momento e cada opção a ser tomada. É o que procuro fazer aqui.

Na história do PT poucas decisões foram tão polêmicas — e tão criticadas, na época — como a recusa de apoiar a chapa Tancredo Neves-José Sarney no Colégio Eleitoral. A bancada parlamentar estava de um lado e o partido, de outro, como sabemos todos. Consumado um impasse de imensa gravidade, a direção do PT convidou os dissidentes a pegar o boné e ir para casa — forma delicada de expulsão. Olhando a história de trás para a frente, examinando as opções possíveis a cada momento, não há dúvida que foi uma das decisões mais acertadas em toda trajetória do partido.

As surpreendentes guinadas ocorridas nos anos seguintes, como a morte inesperada de Tancredo, a Constituinte, o Plano Cruzado, confirmaram, mais de uma vez, que política é como nuvem — uma hora está de um jeito, depois fica diferente. O saldo mostrou que o partido só ganhou em recusar as pressões para aderir a projeto conservador da Nova República, preferindo manter-se fiel ao compromisso com a defesa intransigente pelas Diretas, afastando-se até de lideranças respeitáveis de palanque na maior campanha popular de nossa história.

Essa postura firme está na raiz na gigantesca autoridade que o partido adquiriu nos anos seguintes, seja como o oposição direta a Sarney, seja como uma bancada capaz de exibir, na Constituinte, uma influência muito  maior do que a aritmética de deputados eleitos. Também deixou o caminho aberto para um segundo lugar no primeiro turno da eleição presidencial de 1989 e a partir daí a história política do país passou a ser contada de outra forma, pois o PT e Lula se tornaram sinônimo dos adversários “de tudo isso que está aí”, tornando inevitável sua chegada ao Planalto, cedo ou tarde.

Essa atitude de não impediu uma atuação parlamentar respeitável e influente. Para ficar num exemplo. José Genoíno foi um dos deputados mais influentes de Brasília por mais de duas décadas, numa trajetória que incluiu a travessia de vários desertos parlamentares. É possível ainda encontrar as digitais de petistas em diversas iniciativas positivas permitidas pela relação de forças do plenário. Nem por isso é possível exagerar — o problema é este, exagerar — nas ilusões a respeito dessa atuação.

Na Constituinte, onde a questão social ocupou um lugar importante, o PT teve uma atuação essencial em vários avanços obtidos — sem ocupar um único lugar na mesa. O partido bem que tentou, negociou, fez acordos — e foi traído duas vezes. O mineiro Paulo Delgado foi negociado para ocupar uma suplência mas, na hora da decisão, os aliados que haviam recebido os votos do PT mudaram de lado e lhe sonegaram o voto. O mesmo ocorreu com a paulista Irma Passoni, que seria titular — e acabou traída do mesmo modo.

O partido não tinha nenhum lugar na mesa em 1995, na chegada de Fernando Henrique no Planalto, e em 2000, quando Aécio Neves e Inocêncio de Oliveira disputavam a presidência da Câmara, Aloizio Mercadante fez uma contra-candidatura simbólica.

Estes episódios ajudam a lembrar que o Congresso sempre será um terreno hostil a quem mantém compromissos com os trabalhadores e com a democracia. A história do PT não foi  produto da sorte nem de publicitários mais ou menos talentosos — embora se possa achar que estes fatores tenham sido de grande valia em determinadas situações.

Foi o resultado possível de políticas que se modificaram com o tempo mas  não perderam as próprias referências. Mesmo em momentos de fragilidade o partido deu preferência aos movimentos sociais como sua proteína básica. A incompreensão dessa realidade está por trás da grande crise que o partido enfrenta, cuja origem se encontra no abandono de seus compromissos históricos quando o governo do PT e o partido se associaram num ajuste que nada tinha a ver com os interesses que explicam sua existência. Uma postura de tolerância com a corrupção que faz parte da política brasileira desde que Cabral aportou em Porto Seguro fez o resto.

É nesta situação difícil, de beira de abismo, que o partido chega a janeiro de 2017. Os argumentos foram apresentados e debatidos pelas partes.

O saldo que é a militância está irritada e desconfiada. Formou uma opinião a respeito das tramas e maquinações parlamentares. Quer seu partido de volta e tem todo direito de ser ouvida. Como se viu em todas as campanhas eleitorais, nas horas decisivas a história lhe pertence.

Fonte: site 247



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