200 sindicalistas contra a guerra na Alemanha

Reunião contra o alistamento obrigatório e a economia de guerra

Em 25 e 26 de julho, em Würzburg (Alemanha), reuniram-se 200 sindicalistas alemães contra a guerra e em prol de que as organizações sindicais se engajem na luta contra a corrida armamentista, o serviço militar obrigatório e todos os elementos que conduzem à guerra. Também foram convidados militantes sindicais e políticos europeus: o deputado britânico Jeremy
Corbyn, a cofundadora do Stop the War, Lindsey German, o sindicalista britânico Alex Gordon e o deputado da LFI, Jérôme Legavre. Reproduzimos aqui trechos da fala de Ulriche Eifler (diretora do IG Metall de Würzburg), publicada no jornal francês Informations Ouvrières nº 920.

“O governo está determinado a implementar o maior programa de empobrecimento da história da República Federal da Alemanha. Aumento das contribuições, aposentadoria mais tardia, obrigação de trabalhar mesmo estando doente, agravamento da carga sobre os profissionais da saúde e da assistência a pessoas dependentes, aumento da jornada de trabalho: tudo isso faz parte do seu programa. Nossa tarefa mais importante é, portanto, construir a mobilização mais ampla possível contra essa política. As inúmeras ações organizadas nas últimas semanas contra esse desmantelamento social mostraram, acima de tudo, uma coisa: a vontade de protestar cresce nas empresas, e essa vontade deve ser organizada e levada às ruas. Vamos dizer em voz alta e clara a este governo, a Friedrich Merz, a Lars Klingbeil e, mais ainda, a Katharina Reiche: este país não pertence a vocês. Ele pertence aos habitantes deste país. E não temos motivo algum para sermos gratos pela existência desse ‘Estado social’. Na verdade, é exatamente o contrário: temos orgulho de ter conseguido impor direitos, contra os governos, contra as organizações patronais e, muitas vezes, contra um domínio esmagador da mídia. E se o governo federal lançar hoje uma ofensiva geral contra os assalariados, não iremos nos sentar docilmente à mesa de negociações; pelo contrário, organizaremos a maior pressão possível nas ruas, pois qualquer compromisso negociado constituiria um agravamento da situação atual. Agimos assim porque sabemos que tudo isso não acontece por acaso. O governo federal ataca o Estado social porque está preparando a guerra. Os hospitais, as administrações públicas e as empresas privadas estão sendo preparados para um eventual cenário de guerra. A revisão das leis de exceção atenta contra os direitos fundamentais. Qualquer debate público sobre o direito internacional é impedido, enquanto a população é sistematicamente preparada para uma suposta situação de ameaça. Essa preparação para a guerra implica também que o governo faça todo o possível para nos alinhar à sua política de rearmamento e desmantelamento social.

Mas onde a sociedade é militarizada, o mundo do trabalho também é. Os trabalhadores da indústria automotiva se veem de repente na indústria de armamentos. Os trabalhadores portuários precisam carregar exportações de armas. Os professores são obrigados a convidar militares da Bundeswehr (forças armadas) para as escolas. Os profissionais de saúde aprendem a cuidar de feridos de guerra. E os agentes dos serviços públicos de emprego são convidados a orientar os desempregados para a Bundeswehr. Ora, a militarização do mundo do trabalho implica uma profunda transformação das atividades profissionais. E isso pode, e vai, levar os trabalhadores a tomarem consciência dessa preparação para a guerra e a questioná-la cada vez mais. Os profissionais de saúde querem melhorar a qualidade de vida das pessoas, não remendá-las para que possam voltar à linha de frente. Os professores querem ajudar os jovens a compreender o mundo, não colocar suas salas de aula a serviço do recrutamento militar. E os trabalhadores da indústria querem ter orgulho de fabricar máquinas de pão, cafeteiras ou ônibus, em vez de tanques, drones
ou granadas. Mas quando o mundo do trabalho é militarizado, o local de trabalho se torna
ele próprio um campo de batalha da preparação para a guerra. E já constatamos que os empregadores utilizam seu poder de direção para punir de forma autoritária as tomadas de posição em favor da paz. Há, por exemplo, Christopher, funcionário da DHL em Leipzig, demitido por ter se manifestado contra as entregas de armas a Israel. Há os três motoristas de bonde de Munique que se recusam a dirigir no centro da cidade bondes cobertos de propagandas da Bundeswehr. Ou ainda os professores-pesquisadores de Berlim que expressaram sua solidariedade com seus alunos solidários à Palestina e que, por essa razão, se encontram inscritos nas listas políticas do Ministério da Educação. Esses exemplos mostram que existe, dentro das empresas, uma tendência antimilitarista e uma vontade crescente de se recusar a ser executores dos preparativos para a guerra. Mas se essas reações permanecem individuais e não contam com a ação coletiva dos sindicatos, os trabalhadores ficam totalmente à mercê de seus empregadores. É por isso que devemos travar a luta por posições em prol da paz dentro dos sindicatos.

No fim das contas, está em jogo nada menos do que a própria existência dos nossos sindicatos. Uma produção de guerra sem restrições e o recrutamento de nossos filhos para a guerra são incompatíveis com nossa luta pela redução da jornada de trabalho, com negociações salariais regulares, com comitês de empresa combativos, com o direito à greve e, finalmente, com a existência de sindicatos livres. É por isso que afirmo: a tarefa mais importante de nossos sindicatos hoje é impedir a guerra. E devemos fazer com que essa ideia triunfe em nossas organizações. Vamos fazer isso convocando, no âmbito do movimento pela paz, a nos manifestarmos juntos no dia 26 de setembro para defender os direitos, assim como estamos convocando, nos sindicatos, para uma manifestação no dia 3 de outubro contra os preparativos para a guerra. Façamos isso também participando do dia internacional de ação de 10 de outubro contra o genocídio que continua a ocorrer, porque os massacres em Gaza continuam e porque o doutor Hussam Abu Safiya ainda está detido em uma prisão israelense, onde é submetido à tortura, pelo simples fato de ser palestino.

Vamos participar também do dia internacional de ação contra o restabelecimento do serviço militar obrigatório, pois os jovens que estão sujeitos a pressões por parte das diretorias de suas instituições de ensino, e até mesmo intimidados pelos serviços de inteligência interna, precisam de um movimento sindical forte ao seu lado. Caros colegas, vamos fazer deste outono uma grande mobilização contra a guerra, bem no coração do país cujo chanceler federal qualificou as ações de Israel como “trabalho sujo necessário”. É nossa responsabilidade especial impedir os preparativos de guerra do governo alemão. Ninguém mais além de nós pode fazer isso. O inimigo principal está em nosso próprio país. Mas o movimento internacional nos dará um impulso formidável. Ao lado de milhares de sindicalistas e ativistas contra a guerra de todo o mundo, poderemos, nos confrontos que se anunciam, içar as velas de tal forma que o vento da nossa história e da nossa força internacional nos permita oferecer uma resposta coletiva ao desmantelamento social e aos preparativos para a guerra. Permitam-me, por fim, uma última observação. A iniciativa “Sindicatos contra o rearmamento e a guerra” é uma rede aberta de sindicalistas engajados pela paz. Queremos hoje dar-lhe um novo impulso, pois constatamos que a necessidade de intercâmbio e de organização cresce, enquanto iniciativas sindicais pela paz surgem por toda parte.

Propomos que vocês se organizem sob a bandeira da iniciativa “Sindicatos contra o rearmamento e a guerra”, sejam vocês filiados a título individual, responsáveis por uma estrutura local, departamental ou regional do seu sindicato, ou membros de uma iniciativa sindical pela paz. Vocês podem se tornar signatários desta iniciativa e construir conosco uma voz forte em favor da paz em nossas organizações sindicais. Encontrarão em seus assentos uma declaração de apoio. E, no dia 2 de setembro, convidamos vocês a participar de uma videoconferência nacional para discutirmos juntos essas perspectivas. Esta conferência foi um grande sucesso. Vamos levar esse ímpeto conosco durante as férias de verão e fazer com que, no retorno às aulas, os defensores da guerra se deparem com um outono de mobilização. Glück auf! (saudação tradicional do movimento operário e dos mineiros alemães, que pode ser traduzida como: “Coragem e solidariedade!”). »

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