O velho Judiciário agindo: Censura a sindicato, processos sem julgamento e vista grossa ao boicote de ônibus
A vitória do povo no dia 25 de outubro também foi contra o judiciário. Uma série de acontecimentos demonstram o posicionamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições. O presidente da corte é o ministro Kassio Nunes Marques, nomeado para o Supremo Tribunal Federal (STF) por Bolsonaro em 2022. Nunes Marques está na lista de ministros do STF que têm relações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Seu contato conhecido até agora vai desde orgia paga por Vorcaro até mudança de voto em julgamento envolvendo o Banco Master em processo bilionário.
Ação antissindical e Fiesp à vontade
No início de outubro Kassio mandou suspender a circulação do jornal do Sindipetro Unificado (São Paulo) onde a entidade comparava o futuro da categoria e da Petrobrás a partir das posições de Lula e Bolsonaro. O ministro ordenou o recolhimento dos 30 mil exemplares e o fim da distribuição digital sob pena de multa diária. Enquanto isso, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) pagava impulsionamento de um vídeo de seu presidente, Paulo Skaf, que atacava Lula e o fim da escala 6×1 com alcance estimado em mais de 1 milhão de impressões.
Distribuição concentrada e pedidos de Lula parados
O professor de direito e pesquisador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Celso de Oliveira Santos, realizou levantamento sobre a atuação de Nunes Marques e o ministro André Mendonça, vice-presidente do TSE, outro membro do STF nomeado por Bolsonaro.
Segundo o levantamento, as ações de Lula contra Flávio Bolsonaro no TSE foram concentradas no segundo turno em Nunes Marques. Já as ações da campanha de Bolsonaro contra Lula foram majoritariamente distribuídas a André Mendonça.
Nunes Marques concentrou 42 das 97 das ações apresentadas pela campanha de Lula contra Bolsonaro (43,3%), mas faltando poucos dias para as eleições não havia publicado decisão em nenhuma delas. A diferença também aparece quando o desempenho de Nunes Marques é comparado ao dos demais ministros: outros gabinetes haviam decidido 51,2% dos processos movidos por Lula no mesmo período. O levantamento também identificou uma distribuição desigual de processos para o gabinete de André Mendonça. Segundo a pesquisa, 48 processos apresentados pelo candidato do PL foram encaminhados a seu gabinete, correspondendo a 38,4% das 125 ações propostas por sua campanha.

Paulo Pinto, Agência Brasil
Planejamento de censura prévia na campanha contra Lula
Em 21 de outubro, o jornal Folha de São Paulo divulgou que Kassio e Mendonça discutiram a elaboração de uma minuta de resolução para bloquear canais políticos de WhatsApp nas 48 horas anteriores ao segundo turno das eleições. A decisão atingiria canais com mais de 200 mil seguidores, ocorre que o “Exército do Lula”, criado por André Janones, contava já com mais de 7 milhões de inscritos, enquanto e o “Tropa do Flávio”, cerca de 2 milhões. Sob a pressão da exposição de suas intenções e por falta de apoio no TSE ambos desistiram da ideia.
Vista grossa ao boicote nos transportes
O comprometimento escancarado do presidente do TSE aumentou ainda mais no dia das eleições. Nunes Marques levou quatro horas para decidir sobre pedido do PT que cobrava a prorrogação do horário eleitoral dada a falta de transporto coletivo em cidades como Salvador e São Paulo. Enquanto os ônibus ficaram estacionados nas garagens num conluio entre empresários e políticos, o povo organizava esquemas de caronas e recolhia pessoas em pontos de ônibus para reeleger Lula. Kassio enrolou o que pode e a decisão de prorrogação até as 19h veio somente por decisão do STF, por determinação do ministro Cristino Zanin, quanto a maioria das seções já estavam fechadas.
O conjunto de ações sabidas para favorecer a eleição de Flávio Bolsonaro reforçam ainda mais a necessidade de uma reforma radical do judiciário brasileiro, como vem defendendo o Diálogo e Ação Petista. Felizmente a força do povo brasileiro foi maior que a máquina de manipulação engendrada nas eleições.
Marcelo Carlini
As grandes da internet nas eleições: Ingerência contra Lula foi escancarada
As grandes empresas de internet interferiram nas eleições brasileiras numa tentativa de impedir a reeleição do presidente Lula. Testes (Carta, 14/10/26) mostraram que a ferramenta de Inteligência Artificial do Whatsapp recusou a criação de artes e cartazes com o nome “Lula” e o número “13”, enquanto gerou materiais para Bolsonaro e para outros nomes e números. Outros aplicativos de propriedade da mesma empresa, a gigante Meta, como o Instagram e o Facebook também criaram obstáculos sistemáticos à divulgação de publicações de Lula ou de seus apoiadores.
A meta da Meta
Enquanto isso, dez vídeos do deputado bolsonarista Nikolas Ferreira (PL-MG) somaram meio bilhão de visualizações no Instagram em poucos dias. É o triplo das visualizações de quase uma centena de vídeos dos demais nove deputados mais visualizados, segundo a Sleeping Giants Brasil. É uma audiência maior do que a de várias grandes personalidades – como Neymar, Selena Gomez, Beyoncé e Kim Kardashian. Há fortes indícios de que isso só possa ter ocorrido por meio de ampliação artificialmente forçada pelo Instagram das distribuições dos vídeos de Nikolas.
Funcionários da Meta trocaram mensagens internamente admitindo que houve restrições a contas da campanha de Lula, favorecendo Bolsonaro (Folha 16/10/26). A campanha de Lula chegou a acionar o TSE acusando a Meta de favorecer conteúdos bolsonaristas e de restringir os da militância de Lula, já que a empresa desabilitou sua conta de anúncios em três ocasiões e omitiu-se em desabilitar perfis operados por inteligência artificial bosonaristas com conteúdos gerados por “deepfake”.

Independência?
Um relatório de especialistas da ONU emitido uma semana antes do 2º turno eleitoral brasileiro ressalta que plataformas online são “atores-chave” e que, na eleição brasileira, “milhares de contas e publicações enfrentaram suspensões, redução de visibilidade e limitações de compartilhamento, incluindo jornalistas, defensores dos direitos humanos, atores da sociedade civil e criadores de conteúdo.” E isso “pode significar perder voz no debate público e a capacidade de mobilizar comunidades. Algoritmos, sistemas de IA e decisões de moderação de conteúdo não devem se tornar árbitros invisíveis da discussão política. As restrições podem comprometer as eleições e recursos tardios em pleitos podem ter consequências irreversíveis. […] Democracia e eleições livres e justas dependem de plataformas independentes e consistentes, bem como de um ambiente aberto e pluralista”.
Mas tal independência não pode ocorrer se tais plataformas forem propriedade privada de gigantes multinacionais, as “big techs”. Elas têm interesses venais em interferir nas eleições. Seus proprietários e altos executivos, como Zuckerberg (Meta), Bezos (Amazon), Pichai/Page/Brin (Google), Gates (Microsoft), Cook (Apple), Huang (Nvidia), ou Musk (X/Twitter, Starlink/SpaceX), ou Thiel (Palantir) patrocinaram a campanha Trump e, em troca, assumiram o comando da política do governo dos EUA.
Proprietários das plataformas de inteligência artificial e de uma miríade de aplicativos na internet, eles têm interesses de dominação de mercado em todo o mundo e procuram usar o governo dos EUA e de outros países para facilitar que seus produtos sejam usados monopolisticamente por todo o mundo. E além disso, no caso do Brasil, querem abocanhar os gigantescos recursos minerais das Terras Raras. É o que explica seu favorecimento a Bolsonaro e a extrema-direita vendilhona em todo o mundo.
Regulação já!
É urgente ao Brasil e à sua democracia a regulação das redes de internet e a criação de plataformas públicas e não-proprietárias que substituam as que são atualmente usadas. É urgente expulsar do país (e do mundo) tais multinacionais trilionárias para barrar de vez seu projeto de mundo distópico e apocalíptico.
Alberto Handfas

