Dois meses de guerra, por Luís Felipe Miguel

Reproduzimos abaixo o texto do professor Luís Felipe Miguel*, originalmente publicado em suas redes sociais neste domingo (24).


Dois meses de guerra.

Quando a invasão foi deflagrada, os escribas putinófilos não esperaram para anunciar a vitória russa.

No mesmo dia em que as tropas atravessaram a fronteira, Pepe Escobar louvou a Rússia como a maior potência militar do mundo, profetizou a derrota ucraniana em curtíssimo prazo e, em arroubo retórico juvenil do qual imagino que hoje se arrepende, escreveu: “Isto é o que acontece quando um bando de hienas esfarrapadas, chacais e pequenos roedores cutucam o Urso: uma nova ordem geopolítica nasce a uma velocidade de tirar o fôlego.”

Já era patético na ocasião – lambeção de botas de um autocrata, deslumbramento diante de demonstração de força, despudor ao substituir análise por propaganda.

Dois meses se passaram. O “Urso” mostrou-se bem menos forte do que se anunciava. Na verdade, exibiu ao mundo as deficiências de seu poderio militar. Está sofrendo pesadas perdas, de homens e de armamentos. Em dois meses, morreram mais soldados russos do que em dez anos de Afeganistão.

Putin foi obrigado a recuar de Kiev – o que, entre outras consequências, desacredita completamente a história de que o objetivo seria “desnazificar a Ucrânia”. O objetivo é anexar a região do Donbass, nada mais.

E a tradição da esquerda é, por bons motivos, condenar as guerras de conquista.

Para os putinófilos, não importa. De repente, descobriram que os nazistas estavam todos em Mariupol.

Não os incomoda o absurdo da imagem deste Putin antinazista – ele, um autocrata de extrema-direita, que conta com o apoio ativo dos grupos neofascistas de seu próprio país. Trata-se apenas da busca, desesperada, do “mocinho” que se opõe à OTAN.

Como se o resultado líquido das ações de Putin não fosse o fortalecimento seja da legitimidade da OTAN (já que evidenciou a ameaça contra a qual se proteger), seja dos grupos neonazistas ucranianos (alçados à posição de mártires da independência nacional).

Não há mocinho.

Há, isso sim, 50 mil mortos, muitos deles civis. Há milhões de pessoas desalojadas de suas casas.

Repudiar a agressão russa e exigir o fim da guerra é um imperativo moral e político inegociável.


*Luís Felipe Miguel é sociólogo, professor da UNB, coordenador do Demodê – Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades e autor de diversos livros, incluindo “Democracia na periferia capitalista”, que será lançado na próxima terça feira, 26 de abril.

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