“Em tempo de pandemia, os laboratórios ditam as regras”

O domínio das multinacionais no mundo da saúde está no centro de diversos informativos recentes. O jornal Le Monde havia mencionado a total falta de transparência dos contratos firmados pela União Europeia para comprar vacinas nos termos da empresa americana Pfizer.

Nova revelação sobre a Pfizer explica os atrasos na entrega: “Eis que descobrimos que (a Pfizer) está cobrando aos Estados da UE uma sexta dose da vacina que não estava prevista nos contratos (que se refere a frascos de cinco doses), e por um bom motivo, pois esta sexta dose geralmente é muito difícil de obter, é um excedente que pode ser recuperado com experiência e boas agulhas … A Pfizer-BioNTech percebeu rapidamente os ganhos que poderia tirar: pelo mesmo valor, reduziu em 20% as entregas, considerando a sexta dose como normal. Para o laboratório, é a sorte grande na loteria; para os países, uma verdadeira dor de cabeça”.

E esse é um dos motivos da caótica campanha de vacinação. Centenas de municípios estão alarmados por não estarem recebendo as doses prometidas. Os hospitais cancelam no último momento a vacinação anunciada para os funcionários…

No dia 15 de janeiro, o semanário Marianne detalhou à multinacional à qual Macron havia confiado a supervisão da campanha de vacinação: MacKinsey, uma grande empresa estadunidense, cujo diretor associado sênior “está entre os primeiros grandes doadores para o En Marche” (1).

Em 3 de janeiro, o Le Monde explicava como a Abbott, a gigante americana de diagnósticos médicos, entregou máquinas para a Europa que realizam exames de sangue defeituosos, quando a Abbott tinha total conhecimento das falhas, mas … “Os gigantes do setor estão sob tremenda pressão de seus acionistas, que desejam um crescimento de dois dígitos”, disse um dos especialistas. O Le Monde especifica que “os três principais acionistas da Abbott são pesos pesados na gestão de ativos: The Vanguard Group, Capital Research and Management, BlackRock Fund” … E continua até a náusea!

O caos na assistência médica e nas vacinas encontra sua origem nas decisões governamentais, que abrem caminho para a apropriação do setor de saúde pelas empresas privadas.

(1) La République En Marche (REM), A República Em Marcha, partido fundado em 2016 por Emmanuel Macron [NtdT]

Artigo publicado no jornal “Libération” de 22 de janeiro, reproduzido no jornal francês Informations Ouvrières
Tradução Adaias Muniz

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