Mineradoras e governo “passam a boiada”

O Complexo S11D Eliezer Batista, da Vale, no sul do Pará: funciona a pleno vapor ignorando a pandemia.

Em reunião ministerial de 22 de abril o ministro Salles, do Meio Ambiente, disse ser preciso aproveitar que a atenção da mídia está voltada à pandemia para fazer “passar uma boiada”: encaminhar de fininho os projetos de desregulações ambientais, não apenas favoráveis ao agronegócio, mas sobretudo às empresas mineradoras.

E assim tem sido. Em plena pandemia de covid-19, o governo baixou uma portaria considerando a mineração como “atividade essencial” sob o argumento mentiroso de “assegurar a extração de minerais para a indústria farmacêutica”.

Ora, os minerais utilizados na produção de medicamentos representam uma parte minúscula da indústria extrativista – cuja quase totalidade (ferro, cobre, níquel, ouro etc.) “pode e deve ser paralisada para combater a covid-19”, explica o professor Tádzio Coelho (UFV), especialista no tema. Pois esta é uma indústria que gera aglomerações de trabalhadores (mineiros), que já têm problemas respiratórios em decorrência da atividade profissional. Neste caso, mais que em outros, “o isolamento social é direito trabalhista” essencial.

Filantropia e hipocrisia
Mineradoras, como as multinacionais AngloGold Ashanti, Anglo American ou a brasileira Vale, têm feito muita propaganda. O Jornal Nacional frequentemente anuncia com pompa suas ações filantrópicas: “Milhões de reais em doações de equipamentos e material hospitalar ao combate à Covid-19”. Enquanto isso, elas desmatam e expandem como nunca sua área de extração a baixíssimo custo, sob os auspícios do governo – além de forçarem seus trabalhadores a situação risco.

A Vale, campeã na propalada “benevolência”, segue recusando a indenizar as populações atingidas nos desastres ambientais de rupturas de barragens por ela provocados (Brumadinho e Mariana).

Enquanto Bolsonaro nega o desmatamento (apenas “cultural”), Mourão declarou que o governo não tem qualquer responsabilidade pelo aumento das queimadas e desmatamento.

Em discurso na Câmara, Nilto Tatto (deputado e Secretário de Meio Ambiente do PT) denunciou o general e disse que “Bolsonaro é sim o maior responsável pelo aumento do desmatamento e das queimadas: desde a tentativa de extinção do Ministério do Meio Ambiente até o desmonte promovido em todo programa de controle de desmatamento, incluindo a desqualificação dos dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) no monitoramento das queimadas. Além disso, desmontou a estrutura de fiscalização do Ibama e do CMBio e ameaça os fiscais ambientais que cumprem seu dever. O ministro é um “representante do grande capital, do pior do agronegócio brasileiro para atender interesses que não respeitam o meio ambiente, as terras indígenas, terras públicas, unidades de conservação e território quilombolas”, afirma Tatto.

Ademais, a política de Guedes esmaga a indústria e o mercado consumidor interno (ao atacar salários e direitos), forçando o país a tornar-se cada vez mais dependente do extrativismo e das exportações de produtos primários rumo à recolonização.

Alberto Handfas

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