Um olho na luta dos povos e outro na Copa

Fifa, que agraciou Trump, faz vistas grossas para perseguições

No último 11 de junho, enquanto a Copa do Mundo de Futebol era aberta na Cidade do México, um precário acordo entre Estados Unidos e Irã era celebrado, para, nos dias seguintes, ser violado diretamente, com novos ataques a alvos iranianos e, indiretamente, pela ofensiva israelense contra o Líbano. Enquanto a bola rola, o genocídio na Faixa de Gaza prossegue e a Europa segue ampliando os orçamentos para alimentar a guerra entre Ucrânia e Rússia, uma necessidade econômica incontornável do imperialismo. No mesmo momento em que os meios se concentram na transmissão de jogos e eventos relativos à Copa, a intervenção aberta dos EUA na América Latina não cessa, como no caso do sufocamento assassino do povo cubano.

O evento, uma gigantesca operação de marketing que tem pouco a ver propriamente com campo e bola, uma orgia das grandes multinacionais de diversos ramos, em especial das bets, foi inaugurado ao cabo de um ano e meio de uma duríssima guerra desencadeada por Donald Trump contra os migrantes em território norte-americano. Meses antes da abertura do torneio, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, havia agraciado Trump com o “prêmio da paz da FIFA”. A bizarra homenagem pretendia aliviar o peso de realizar a Copa nos EUA, em pleno momento de maior agressividade de Trump contra os povos e contra a classe trabalhadora estadunidense.

A política de ataque à fração migrante do proletariado vem tendo sua versão antes e no curso do torneio. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan teve sua entrada negada no Aeroporto de Miami e foi cortado da Copa do Mundo, pela FIFA. Milhares de torcedores de países em conflito com o imperialismo tiveram seus vistos negados. A própria seleção do Irã, classificada para o torneio regularmente pelas regras da FIFA ficou ameaçada de ser cortada e não pode pernoitar nos lugares onde joga a fase inicial da Copa, tendo de se deslocar após seus jogos para o México, numa violação flagrante até mesmo da isonomia esportiva. Incrivelmente, até poucos dias antes do início do evento, a FIFA não ofereceu tradução para os jornalistas que cobrem o torneio em língua espanhola, o que fez apenas depois de intensa denúncia internacional.

Contudo, mesmo no quadro estritamente controlado imposto pelas polícias locais e pelo ICE, torcidas como a da Argélia, Bósnia, Escócia e Coreia do Sul têm ido aos jogos com bandeiras da Palestina e cantando “Palestina livre” em inglês. As meninas mortas pelos bombardeios numa escola de Minab, no Irã, também foram lembradas e se sucedem protestos no México que têm entrelaçado reivindicações populares e demonstrações contra o regime israelense pelo genocídio palestino. Mesmo nas delegações, diante de abordagens humilhantes na recepção de algumas equipes (revista ostensiva ainda no campo de pouso, com agentes armados e cães), há manifestações de resistência. O técnico do Irã já disse que não vai abrir mão de chegar ao local do jogo da terceira rodada com uma mínima antecipação.

Como em todas as Copas, a classe trabalhadora aproveita a atenção internacional para levantar suas bandeiras que, neste caso, unem as lutas dos povos com a batalha da classe contra o ICE e Trump no interior dos EUA.

Não menos emblemática foi a realização neste último 20 de junho, nos dias da Copa, em Londres do comício de mais de 3 mil representantes de toda a Europa contra a guerra (ver págs. 6 e 7), um contraponto ao espetáculo de subserviência dos governos e federações nacionais, bem como da FIFA, a Trump nesta pantomina que encobre o espetáculo genuíno do futebol que Messi, Mbappé, Mané e uma imensidão de imigrados que povoam as seleções nos proporcionam.

Eudes Baima

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