1979: Liberdade para os presos de Itamaracá

A OSI foi às ruas na luta pela anistia ampla, geral e irrestrita

Com a ditadura militar entrando nos estertores, a campanha pela anistia geral e irrestrita aos que combatiam o regime militar ganhou destaque.

Passeatas estudantis ocupavam as ruas. A tendência estudantil, animada pela Organização Socialista Internacionalista (OSI), levantava a bandeira de ABAIXO A DITADURA! Não sem enfrentar resistência de outras tendências do movimento estudantil. O “abaixo a ditadura”, ganhou as ruas, como registram fotos de faixas e cartazes das manifestações da época.

No movimento operário do ABC paulista latejava a luta direta da classe operária que eclodiu nas greves nos anos seguintes. A efervescência dava o tom da situação. Era preciso, e possível, avançar.

A OSI se dispôs totalmente nesta perspectiva. Seu jornal (O Trabalho, lançado em 1º de maio de 1978), estampava as lutas e a nossa disposição em avançar.

Em fevereiro de 1978 foi criado o Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA). A OSI, sem pestanejar, agarrou o movimento, que foi fundamental para abalar mais os alicerces da ditadura.

Como sempre, em momentos de efervescência, a luta por objetivos comuns, uma iniciativa de frente única, trazia juntas diferentes opiniões. A OSI engajada e respeitando a frente única, todavia, não abriu mão de sua independência a ofereceu a sua opinião e ação. Era preciso ousar, avançar.

No auge desta campanha a OSI ousou organizar um show pela anistia e pela libertação dos presos de Itamaracá.

Em 17 de agosto de 1979 o show no ginásio do parque São Jorge, reuniu cerca de oito mil pessoas e teve a presença e apoio de artistas famosos ou em início de carreira. Entre eles um merece destaque: Luiz Melodia.

Em um verdadeiro testemunho sobre este show, José Castilho, hoje professor aposentado pela Unesp e à época militante da OSI, e responsável pela organização do show, escreveu um texto (agosto de 2017) quando do falecimento de Luiz Melodia, que nos traz à memória a ousadia da ação da OSI.

“Luiz Melodia, o poeta que também cantou pela anistia em 1979” título do texto de José Castilho. Um testemunho, que nos leva a nos inspirarmos no nosso passado, agora que completamos 50 anos, como um guia de nossa luta presente e futura. Aqui trechos deste texto, disponível na íntegra no site da Unesp.

“O grupo político que eu militava, ligado à famosa Libelu do movimento estudantil, liderou uma campanha pela libertação dos presos políticos da Ilha de Itamaracá. No auge desse movimento, em 1979, resolvemos organizar um Show pela Anistia e pelos Presos Políticos de Itamaracá.

Evidentemente nenhum de nós tinha qualquer experiência em realizar shows musicais, principalmente com grandes artistas que esperávamos aderissem. Mas como tudo que fazíamos, partimos com a cara e a coragem. O glorioso Corinthians, o da Democracia Corintiana, foi o único que se prontificou a ceder gratuitamente seu ginásio. Os artistas aderiram em número significativo e a única defecção foi Elis Regina, que seria a grande atração da noite. Ela me ligou horas antes dizendo que resolvera não aderir alegando questões políticas mais gerais. Creio que sofreu pressões de parte da esquerda para não entrar nessa campanha específica.

Ginásio lotado, tensão no auge, o show começou com toda pinta que seria uma noite intensa e de sucesso. Estávamos eufóricos, tudo estava dando certo e a música se confundia com a vibração pela política e o sentimento que estávamos quase no final do túnel sombrio da ditadura.

Por volta das 23 horas um dos nossos seguranças do Corinthians me chamou apressado para atender um insistente telefonema nos bastidores. Meio a contragosto fui atender:

– Alô, quem fala? – Oi, é o Luiz, você é o produtor? -Sim, sou eu. O que você quer? – Queria ir aí, cantar umas músicas. – Cara, o show tá completo, você é quem mesmo? – Sou o Luiz. – Qual Luiz? – Luiz Melodia, dá pra me encaixar? -Luiz Melodia, cara, aonde te encontro, vou te buscar.

E ele chegou, com uma roupa branca, daquelas batas indianas que usávamos, subiu ao palco, ele e o violão, ovacionado. E cantou:

‘Se alguém quer matar-me de amor, que me mate no Estácio.’ Naquela figura magricela, brasileira até o último, e na sua música inigualável e peculiar, estávamos todos, presentes, resistindo às botas da ditadura e praticando o melhor que tínhamos para oferecer naquele momento.”

Em 28 de agosto de 1979 (governo Figueiredo) foi promulgada a lei da anistia que, vergonhosamente livrou também a cara dos assassinos e torturadores. Integrada à Constituição de 1988 e chancelada pelo Supremo Tribunal Federal, foi repudiada à época pela OSI que hoje, Corrente O Trabalho do PT segue combatendo contra esta excrecência, que leva nosso país, diferentes de países (como Chile e Argentina) manterem impunes seus assassinos. Vivos ou mortos seus agentes, os crimes da ditadura não podem ficar impunes.

Misa Boito

Últimas

Mais lidas