Há 50 anos nascia a OSI, seção brasileira da 4ª Internacional, num turbilhão de acontecimentos que davam sinais de que a classe operária brasileira se levantava contra a ditadura militar e sua política de arrocho salarial e repressão.
Na época, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo era dirigido pelo pelego Joaquinzão, interventor da ditadura militar no sindicato desde 1965 e, com o apoio do PCB (Partido Comunista do Brasil), permaneceu como presidente por 22 anos, até 1987. A OSI inicia sua intervenção política nos metalúrgicos da capital, com três militantes, dois deles se chamavam Élcio: um camarada da zona oeste e outro da zona sul, além dessa que aqui escreve, também da zona sul.
Metalúrgicos da capital paulista
Se a memória não me falha, o primeiro contato com os metalúrgicos que se organizavam na Oposição (MOSMSP – Movimento de Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo) ao Joaquinzão, foi em 1978 na campanha “nem Arena, nem MDB, pelo partido operário independente”, colando, nas madrugadas, cartazes da campanha. Conheci neste período o companheiro Silva, era alto, grande, de riso fácil, um dirigente operário com quem desenvolvemos várias ações políticas. Tinha uma grande preocupação na comunicação com os trabalhadores. Frente a presença significativa de operários nordestinos na categoria, ele criava, na forma de cordel, histórias retratando situações da vida dos operários, muito bem recebidas quando apresentadas nas portas de fábrica.
Os militantes da 4ª Internacional integraram-se à luta dos metalúrgicos de São Paulo. Tanto na zona sul, como na zona oeste da capital, participávamos do MOSMSP e das atividades que prepararam uma das maiores mobilizações da categoria, a greve de 1979, apesar do obstáculo que representava a diretoria do Joaquinzão.
No segundo semestre de 1979, a Oposição participa da campanha salarial. Apesar das manobras da direção do sindicato para impedir a participação do MOSMSP, não puderam evitá-la. Organizávamos panfletagem e agitação na porta das principais fábricas, convocando para as assembleias, já propagandeando a necessidade da greve, caso os patrões não atendessem a reivindicação da categoria. Formaram-se os primeiros “comandos de mobilização”, que logo depois se transformaram em “comando de greve”. Os militantes da OSI presentes na mobilização, se integraram aos comandos da zona sul e zona oeste.
Na assembleia que aprovaria a pauta de reivindicação da campanha salarial e dada a dificuldade em tomar a palavra, a Oposição organizou, junto com os trabalhadores da Metal Leve (fábrica da zona sul), uma enorme faixa onde se lia: 83% DE AUMENTO OU GREVE! Os pelegos foram pegos de surpresa, não tinham como controlar a assembleia e caso a patronal não aceitasse as reivindicações, a greve seria decretada. Na primeira negociação, os patrões ofereceram 59% de aumento e a greve foi aprovada!
A repressão e a morte do Santo Dias

O DOPS (Departamento da Ordem Pública e Social) acompanhava os passos dos militantes que se destacavam seja nos piquetes ou nas assembleias. Na zona Sul, o local cedido pelo sindicato, foi invadido pela Polícia, que prendeu mais de 100 pessoas. A partir daí, o Comando passa a se reunir na Capela do Socorro, região de Santo Amaro. Dois dias após o início da greve, Santo Dias, militante da Pastoral Operária e dirigente do MOSMSP, é assassinado na portaria da fábrica Silvânia, em um piquete pacífico, com um tiro nas costas.
Mas a greve cresceu!
Se o objetivo era amedrontar os trabalhadores e fazê-los recuar, o resultado foi exatamente o oposto. A morte do companheiro Santo Dias fez crescer a indignação dos trabalhadores, as homenagens a Santos Dias reuniram dezenas de milhares e a greve cresceu.
Recordo-me da felicidade dos operários e operárias que chegavam ao sindicato para informar a paralisação, em contradição com os semblantes nervosos dos dirigentes pelegos! Nem a diretoria do Joaquinzão, nem a Oposição Metalúrgica tinha controle da enorme mobilização dos operários! Isso preocupava empresários e a FIESP (Federação da Indústria do Estado de São Paulo) que queriam que os pelegos terminassem logo com a greve.
Na região sul, onde estavam as maiores fábricas multinacionais, organizamos piquetes que começavam entre 4 e 5 horas da manhã. No corredor fabril da “Marginal Pinheiros”, o piquete passava e não deixava um único operário na fábrica. Chamávamos de “piquete bola de neve”, com fábricas revistadas uma a uma pelos membros do Comando de Greve.
As assembleias
Os pelegos não puderam evitar os Comandos de Greve, mas impediram a constituição de um Comando Geral de Greve que dirigisse e negociasse com a patronal. Somente a diretoria do sindicato negociava. Essa situação foi crucial no desenvolvimento dos acontecimentos.
Na segunda assembleia, a Rua do Carmo, centro de São Paulo, foi totalmente tomada pelos operários e operárias em greve, cerca de 30 mil em frente ao Sindicato. Os patrões oferecem 72% e o Joaquinzão fala que não dá para conseguir mais do que isso. Os operários vaiam, os pelegos se revezam para impor os 72% e impedem que a Oposição tome a palavra na assembleia. A assembleia termina em pancadaria entre os “leões de chácara” contratados pelos pelegos e militantes da Oposição.
Os comandos de greve, a partir de proposta da Oposição, mantêm a greve, mas a confusão entre os trabalhadores é inevitável, ainda que muitas fábricas mantivessem a paralisação. Mesmo dentro do MOSMSP surge a proposta de encerrar a greve. Mas, nós, militantes da OSI não tínhamos a mesma avaliação e defendemos na assembleia, que se reuniu novamente em frente ao sindicato, mas dessa vez sem a participação dos pelegos, que mantivéssemos a greve, que ainda tínhamos apoio entre os operários para continuá-la e conseguimos a maioria para mantê-la.
As condições existiam para a continuidade, mas exigia uma direção firme e coesa, o que não ocorreu. E nós, militantes da 4ª Internacional, éramos a minoria na Oposição e o resultado foi que a decisão da assembleia não foi encaminhada. Não pudemos impedir o fim da greve, mas nossa firme posição permitiu que nos construíssemos na categoria metalúrgica.
As comissões de fábricas
Partindo de experiências anteriores do movimento operário e na grande mobilização no ABC, o MOSMSP impulsiona a organização de comissões de fábrica. Monark, MWM (essas dirigidas por militantes da OSI), Metal Leve e Ford entre outras, se organizam nesse período. Mas, à exceção da comissão da Ford, desaparecem por conta das demissões que pouco a pouco – e cirurgicamente – são organizadas pela patronal.
Sumara Ribeiro

