Vírus descontrolado e testes apodrecendo

Bolsonaro diz que é gripezinha e Dória escamoteia a piora da situação em SP por interesses eleitorais

Sete meses após anunciar a distribuição de 46 milhões de testes para diagnosticar o novo coronavírus, o Ministério da Saúde só entregou até agora 38% dos kits para exames a estados e municípios. Era prevista a entrega e o uso de quase a totalidade dos testes até outubro. E o problema não é a falta de testes.

Há ainda 7,1 milhões de testes estocados em Guarulhos (SP) —6,8 milhões com validade até janeiro! Qual a solução dos generais subservientes, encastelados no governo? Procurar parecer permitindo estender o uso por mais quatro meses.

Até agora, o Brasil aplicou 5,7 milhões de testes do tipo RT-PCR na rede pública, só 23,6% dos 24 milhões previstos para este ano.

No descaso com que o governo trata o combate à pandemia, em junho o Ministério da Saúde pediu à Fiocruz que suspendesse temporariamente a produção de 7,6 milhões de testes. O pedido ocorreu por causa do alto número de testes que a pasta já mantinha em estoque, e que segundo o próprio ministério, pouco avançou na distribuição nos meses seguintes.

Para especialistas, a situação revela falta de planejamento e organização da pasta para o controle da doença. “O Brasil tinha condições de fazer enfrentamento adequado da epidemia, mas não tem um plano completo para isso”, diz o epidemiologista Guilherme Werneck, vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva). “É um problema logístico.”

“A melhor estratégia é testar”
Secretários estaduais e municipais de Saúde apontam diversas facetas do problema. Eles citam falta de instrumentos para coleta e outros insumos. Segundo o Conass (conselho dos secretários estaduais), embora as secretarias de Saúde tenham um estoque que permite realizar 1,5 milhão de exames, há o risco de que o fornecimento do material volte a apresentar problemas nos próximos meses. O assessor técnico do Conasems (conselho dos secretários municipais), Alessandro Chagas, afirma que a falta de swabs —espécie de hastes com algodão nas pontas— e tubos nos últimos meses prejudicou a coleta.

Em meio a críticas por esses gargalos na testagem, o secretário-executivo do ministério, Elcio Franco, disse na última sexta-feira (28/11) que testes não são “requisito” para diagnóstico e tratamento.

Em contrapartida e baseado no sucesso de locais aonde testes foram usados como principal estratégia, Alberto Chebabo da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), afirma que, embora o diagnóstico clínico seja importante, não há como abrir mão dos testes. “A melhor estratégia que temos nesse momento não é ivermectina, cloroquina nem vacina. É testar, diagnosticar e isolar os casos positivos”, diz.

E as previsões de uso adequado dos testes não são animadoras. Os dados apontam uma queda no volume de testes aplicados em setembro e outubro. Não há dados atualizados para novembro. A previsão em maio era o país chegar a 30 mil testes por dia. Atualmente, no entanto, são feitos cerca de 8.500.

Um nega, outro oculta
Frente à pandemia, o governo federal adota uma postura negacionista. Já o governador de São Paulo, Dória (PSDB), que ganhou palco com a polêmica estéril sobre a vacina, esperou passar o segundo turno das eleições para reconhecer uma situação de recrudescimento da pandemia e anunciar medidas. Por interesses eleitorais, em particular reeleger Covas (PSDB) prefeito da capital, a realidade foi ocultada.

O primeiro alarde veio de notas públicas de Hospitais Privados na cidade, em 9 de novembro. Porém, as internações por covid-19 subiram primeiro nos hospitais públicos.

De 16 de outubro a 16 de novembro, a média móvel de internações na rede pública de São Paulo teve um aumento de mais de 90%.

No dia seguinte à reeleição de Covas, em entrevista coletiva Dória reconhece a situação, anuncia a fase amarela e um plano. E lembremos que nenhuma medida para assegurar a sobrevivência dos trabalhadores como assegurar seu emprego e renda, alimentação e segurança no trabalho provêm desse plano.

Juliana Salles

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