Publicamos abaixo a íntegra da entrevista de Pedro Paulo de Abreu Pinheiro, Pepê, da direção nacional do Luta Pelo Socialismo, PT-MG. Ela feita por Markus Sokol, para a edição 964, 11 de junho, do jornal O Trabalho.
O Trabalho – Os trabalhadores a juventude rejeitam a política bárbara de Trump que respalda a extrema-direita, mas não é imbatível, a começar nos próprios Estados Unidos. É da solidariedade internacional, e não de outro lugar, que deve emergir a força capaz de reverter a situação. O que vc acha desta situação?
Pepê – Concordamos plenamente com a assertiva. Até mesmo porque a extrema-direita não é um fenômeno de política nacional, mas um polo organizado internacionalmente. Trump e Netanyahu funcionam como o centro gravitacional desse sistema — o primeiro fornecendo o peso econômico e militar do imperialismo norte-americano, o segundo operando como sua ponta de lança no Oriente Médio — enquanto uma constelação de figuras menores orbita ao seu redor: Milei, Orbán, Meloni, os herdeiros do bolsonarismo, a AfD alemã. Trata-se, em termos leninistas, de uma articulação própria da fase imperialista: como Lenin demonstrou em “O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, o capital financeiro não conhece fronteiras e organiza suas alianças políticas em escala mundial. Seria ingenuidade analisar cada um desses governos isoladamente, como patologias nacionais, quando constituem uma frente coordenada de guerra social contra os trabalhadores, os povos do Sul global e a própria juventude.
Mas esse polo não é imbatível. Os sinais estão à vista: governos progressistas continuam sendo eleitos, inclusive no quintal imediato do imperialismo; a juventude estadunidense se mobiliza massivamente contra o genocídio palestino, abrindo fissuras no coração do próprio império; e o eixo Washington-Tel Aviv descobriu que encontra resistência militar efetiva no Irã e no Libano, não dispondo mais do monopólio incontestado da força que imaginava possuir.
E aqui chegamos ao ponto decisivo. Se a extrema-direita se organiza internacionalmente, a resposta não pode ser nacional. Quando Marx e Engels encerraram o Manifesto com a palavra de ordem “Proletários de todos os países, uni-vos!”, temos uma tese científica: o capital é uma relação social mundial, e portanto sua superação só pode ser mundial. Uni-vos todos — não uma parcela, não os trabalhadores do Norte contra os do Sul, não os de um país contra os do vizinho. A história do movimento operário demonstra que cada vez que o internacionalismo foi abandonado em nome de acomodações nacionais, a classe trabalhadora pagou com derrotas catastróficas.
Para nós, do Sul global, essa exigência tem um conteúdo adicional, que a teoria da dependência formulou com precisão: a espoliação imperialista não é acidente, a transferência de valor da periferia ao centro é a condição mesma de reprodução do capitalismo mundial. Disso decorre que a unidade dos povos do Terceiro Mundo não é opção sentimental, mas necessidade: nenhum país dependente rompe sozinho o cerco do imperialismo. A solidariedade internacional de que fala a pergunta — dos sindicatos norte-americanos em greve à resistência palestina, dos governos progressistas latino-americanos aos movimentos de massa africanos — é a única força material capaz de reverter a situação. Não virá de outro lugar: não virá dos organismos multilaterais capturados, não virá da diplomacia das classes dominantes, não virá da espera. Virá, como sempre veio, da organização independente dos trabalhadores e dos povos oprimidos em escala internacional.
OT – O PT nasceu socialista. Mas parece que, como a CUT, deixou certas bandeiras pelo caminho. Por exemplo, a luta pelo fim da escala 6X1 que agora avança, veio do VAT, de fora das centrais e do PT. Como você vê isso?
Pepê – Quando a bandeira mais elementar da classe trabalhadora – a melhora nas condições trabalhistas -, precisa ser levantada por fora das estruturas construídas justamente para isso, algo se cristalizou nessas estruturas. O nome desse algo é conhecido: são os limites do reformismo. Embora as reformas tenham, sim, importância, o reformismo e a famigerada governabilidade opera por uma lógica de conciliação permanente: cede-se hoje para preservar a aliança, modera-se amanhã para acalmar o mercado, negocia-se depois para garantir a base parlamentar. O problema é que essa lógica tem um custo cumulativo, e a história recente o demonstrou com brutalidade pedagógica: a negativa do Senado à indicação de Jorge Messias ao STF mostrou que os acordos com o centrão e a direita fisiológica não compram lealdade. Compram apenas tempo, e tempo emprestado a juros extorsivos. No fim, a “governabilidade” construída pela conciliação revelou-se uma armadilha, uma vez que as concessões foram embolsadas, e na hora decisiva o aliado de ocasião votou contra.
Mais que isso, como sabemos, esse reformismo não atacará o ponto central, porque o ponto central é precisamente o que a conciliação proíbe tocar. Pautas que atendam de fato os interesses dos trabalhadores brasileiros — fim da 6×1, taxação séria das grandes fortunas, reversão das contrarreformas trabalhista e previdenciária, soberania sobre recursos estratégicos — colidem frontalmente com os interesses do capital financeiro e do agronegócio que sustentam a “governabilidade”.
Para nós, o momento é de pressão. Campanha eleitoral é um momento fundamental para exigir que os representantes eleitos assumam compromissos com as pautas trabalhistas. E precisamos ter algo muito claro: nós, da esquerda, não temos banco. Não temos os fundos do mercado financeiro, os recursos do agronegócio, o aparato midiático das classes dominantes. Nossa única fonte de força na política eleitoral, na política sindical, nos movimentos sociais é a organização e a mobilização da própria classe. Fenômenos como a VAT como pressão externa, combinada com a pressão da própria base da militância petista por dentro, que pode empurrar o PT para a esquerda, até para reencontrar as bandeiras com que nasceu.
OT – Você assinou a Declaração que propõe um Reforma Política Radical no caminho de uma Constituinte Soberana para fazer as reformas estruturais. Como vc explicaria essa questão para um trabalhador mais consciente?
Pepê – Um trabalhador mais consciente já sabe, pela experiência, que algo está travado: ele vota, elege, e as pautas que importam à sua vida nunca chegam a ser decididas. A Declaração nomeia o porquê com todas as letras: o Congresso Nacional bloqueia as pautas populares e chantageia o governo; o orçamento público foi sequestrado pelas emendas parlamentares; expedientes antidemocráticos que oligarquizam a representação e replicam sua lógica clientelista nas Assembleias e Câmaras. E por trás dessa engrenagem está o que o documento chama de nó górdio do sistema: o agronegócio, a mineração exportadora e o capital financeiro da Faria Lima, amparados nos privilégios do Judiciário e sob a sombra da tutela militar do Artigo 142. O resultado é a desigualdade abissal que os números da Declaração escancaram.
É daí que vem a Reforma Política radical. As reformas populares não podem continuar sendo adiadas, e a Declaração as enumera: reversão das privatizações da Eletrobrás e do sistema Petrobras — BR Distribuidora, refinarias, fertilizantes —, porque não há soberania nacional sem controle dos recursos estratégicos, num momento em que o imperialismo pressiona abertamente o continente; revogação das contrarreformas trabalhista e previdenciária; reformas no Judiciário e no Exército; Imposto sobre Grandes Fortunas, sobre patrimônio e renda, como fizeram outros países; salário mínimo no nível do Dieese em quatro anos; e libertar a economia do arcabouço fiscal, derrubando os juros que devoram R$ 1 trilhão por ano do orçamento público.
Por isso a Constituinte Soberana. Trata-se de uma ruptura pela via democrática e não de repetir o Congresso Constituinte de 88, aquele arranjo em que parlamentares comuns, eleitos sob as regras velhas e acumulando funções, produziram uma Constituição já nascida sob veto das classes dominantes. Soberana quer dizer duas coisas: soberana frente ao imperialismo e ao capital financeiro, livre para decidir sobre os recursos e o destino do país; e soberana frente às instituições apodrecidas, convocada com poderes reais para fazer as transformações sociais e econômicas profundas que o Brasil precisa. A burguesia brasileira nunca fez e nunca fará a reforma agrária, a soberania energética, a taxação das grandes fortunas. Quem pode fazê-las é o povo trabalhador organizado — e a Constituinte Soberana é o instrumento. É essa discussão que precisa ser aprofundada com os trabalhadores de nossa base e de todo o país.

