Mais de 60 mil marroquinos entram no enclave colonial espanhol
Publicamos abaixo trechos da “Carta Semanal” da seção da 4ª Internacional na Espanha, o POSI, datada do último 3 de agosto.
“No momento em que escrevemos, boa parte dos mais de 60 mil cidadãos marroquinos, em maioria jovens, que chegaram a Ceuta a nado e atravessaram a vala da aduana de Tarajal, voltaram ao Marrocos, mais de 70 deles morreram afogados. (…)
Os que voltaram o fizeram obrigados pela fome e sede, pois os comércios, bares e restaurantes de Ceuta foram fechados, enquanto o exército espanhol os empurrava de volta para a fronteira.
Ceuta e Melilla são enclaves coloniais espanhóis no Marrocos, restos do ‘Protetorado’ estabelecido pela monarquia espanhola antes da independência do país em 1957 (…)
O enclave de Ceuta, de 18 km2, é povoado por cerca de 84 mil habitantes e nele, como no de Melilla, estão guarnições militares ‘de elite’ (legião e regulares), cuja missão histórica sempre foi a de ‘proteger’ a monarquia espanhola e os interesses do grande capital. Não é casual – recordemos 90 anos depois do levantamento de Franco em 1936 – que foi nos enclaves marroquinos que se iniciou a sublevação militar-fascista contra a República.
Nenhuma casualidade
O Marrocos vive uma crise social sem precedentes, 37% da juventude está desempregada e aspira fugir da opressão e miséria abrindo um futuro na Europa e, em primeiro lugar, na Espanha, onde já vivem e trabalham mais de um milhão de marroquinos.
É evidente que a CIA, o Mossad (serviço secreto de Israel, NdT) e os serviços secretos marroquinos têm a ver com a provocação desse caos na fronteira (…).
Deixar entrar na Espanha, inclusive induzir dezenas de milhares de jovens a fazê-lo, colocando em dificuldades o governo de Pedro Sánchez, serve aos interesses de Israel e do governo dos EUA, que não engolem os gestos de Sánchez e seu governo em favor da Palestina, nem a sua negativa em colaborar nos bombardeios contra o Irã. Não é casual que Netanyahu e vários ministros de Israel aplaudam a crise provocada com os acontecimentos de Ceuta. Uma atitude, é claro, apoiada pelo PP (partido da direita espanhol, NdT) e VOX (extrema-direita) e toda a caterva de governos reacionários da Europa, que aproveitam para criticar a regularização de imigrantes que vai retirar da clandestinidade e super-exploração quase um milhão de trabalhadores na Espanha, irmãos de classe cujos direitos todo trabalhador consciente deve defender.
Os trabalhadores e os povos do Estado Espanhol
O governo Sánchez, da mesma forma que o conjunto das organizações do movimento operário, se enfrenta com uma contradição: não é possível defender os direitos dos povos e, ao mesmo tempo, manter os enclaves coloniais herdados do passado. (…)
Por isso é necessário seguir exigindo a devolução incondicional das duas cidades, os rochedos e as ilhas Chafarinas e Perejil ao Marrocos. O interesse do movimento operário é lutar para estabelecer a solidariedade e cooperação entre os povos, sobre a base de se acabar com a opressão colonial e a monarquia que a tutela. (…)
A expressão ‘crise migratória’ pode levar a uma grave confusão: entender o ocorrido como resultado da atuação de estrangeiros que ‘invadem’ um país ‘soberano’. Não, a única invasão em Ceuta e Melilla é a do Estado Espanhol que mantém esses territórios africanos como enclaves coloniais. Neste caso, a provocação dos EUA e do Estado sionista de Israel, através da monarquia marroquina, se aproveita da penúria vital do seu povo, para negar um direito inalienável para qualquer pessoa trabalhadora que é o de deslocar-se para onde possa encontrar um meio de vida.
Pelo direito de migrar! Direitos legítimos para todos os trabalhadores, independentemente de sua origem, nacionalidade, língua, sexo, etnia ou religião!”

