Abaixo trechos do artigo sobre os 90 anos do início da Guerra Civil Espanhola, de Manuel Cusó e Josep Pozo. A íntegra está na revista A Verdade 118, que pode ser adquirida conforme instruções no anúncio (card) abaixo.

“Dentre aqueles que se reconhecem politicamente nas organizações que se opuseram à revolução social em nome da República burguesa, uma das explicações mais comuns atribui quase que exclusivamente o sucesso de Franco à ajuda dada tanto pela Alemanha nazista quanto pela Itália fascista. Estes são, certamente, fatos incontestáveis. Sabe-se como os aviões alemães e italianos transportaram o exército da África, a partir do Marrocos, até o sul da Espanha para ajudar o golpe de Estado contra a República a vencer em certas zonas e a se consolidar em outras. […] Alguns acrescentam também, vantagem que representou para os militares rebeldes o fato de que as “democracias” da época – ou seja, o governo conservador britânico e o governo da Frente Popular na França – tenham decidido, cada qual por suas próprias razões, a estabelecer uma igualdade entre o governo legítimo da República e os militares que se levantaram contra ele. […]
A URSS seria uma exceção?
Aqueles que atribuem a um ou a outro destes fatores a causa principal da derrota do proletariado espanhol colocam, geralmente, a ênfase sobre “a exceção” russa, exaltando a ajuda fornecida por este país e omitindo de especificar que ela foi entregue a conta-gotas, visando sobretudo impedir a revolução social de triunfar na Espanha. Da mesma forma, passa-se em silêncio – quando não se oculta categoricamente – a “reticência” inicial da União Soviética durante os dois primeiros meses decisivos do conflito, nos quais a resposta popular à insurreição militar fez com que ela fracassasse em dois terços do país, bem como nas principais cidades (Madri, Barcelona, Valência e Bilbao). Foram dois meses durante os quais, como se pôde constatar posteriormente, os rebeldes se recuperaram de seu fracasso inicial e se reorganizaram. […] Seja como for, um fato é certo: as “democracias”, com a colaboração inestimável de Stálin, encarregaram–se de violar o direito internacional ao patrocinar o acordo de não-intervenção que subscreveram – exemplo inigualável do cinismo que reinava e ainda reina nas relações e nos tratados internacionais –, obrigando a República a ter de recorrer ao mercado clandestino no para obter armas, geralmente duas vezes mais caras e em péssimo estado. Enquanto isso, a Alemanha e a Itália forneciam, sem nenhum entrave, ajuda militar a Franco. […]
O acordo de não intervenção: antes o fascismo do que a revolução social
No verão de 1936, a insurreição militar contra a República – à qual o próprio governo espanhol não soube nem quis cortar as asas, chegando inclusive a se recusar, num primeiro momento, a fornecer armas às milícias operárias que as solicitavam, enquanto buscava um acordo com os golpistas – provocou uma resposta popular que acabou por desaguar em uma revolução social. Para os operários e camponeses que foram às ruas, não havia outro meio de deter o fascismo do que atacar de frente a sua base social e econômica. Assim, em todo o território no qual o golpe de estado fracassou, o movimento defensivo transformou-se rapidamente em um poderoso movimento ofensivo, que se dirigiu não somente contra os militares insurgentes e contra os inimigos políticos da República, mas também contra os inimigos de classe. Inscrita em um mesmo movimento, a resposta aos militares insurgentes se combinou com a ocupação de fábricas e de terras, e não parou no terreno da defesa estrita da legalidade republicana atacada, mas foi além. Foram criados órgãos de poder revolucionário que, em escala local, assumiram o controle da situação. […] Paralelamente à tomada do poder político, houve também uma ofensiva generalizada contra a propriedade privada sob suas múltiplas formas: a apreensão, a intervenção ou a coletivização das indústrias e dos serviços, e a instauração do controle operário como regra geral.
A revolução social foi um fato que os aparelhos do Komintern e da social-democracia não apenas tentaram ocultar desde aquela época, mas que também combateram. Assim, a revolução operária foi inicialmente apresentada aos olhos do movimento operário internacional como uma tentativa do proletariado espanhol de defender a causa da democracia burguesa contra o fascismo. […] o imperialismo, tanto inglês quanto estadunidense, não tinha qualquer interesse em combater o fascismo – no plano diplomático, permaneceu orientado na prática pela política dita do “appeasement” (do “apaziguamento” em relação a Hitler, NdT) até 1939 e a invasão nazista da Polônia – de forma muito semelhante à burguesia francesa, à qual havia se subordinado o governo da Frente Popular presidido por Léon Blum. Por sua vez, Stálin participava do mesmo dispositivo de “segurança” sustentado pela Grã-Bretanha e pela França, desde o pacto de não-intervenção até a Sociedade das Nações. Subordinado como estava ao imperialismo em razão da política do “socialismo num só país”, que visava consolidar o poder da burocracia – mesmo ao preço de sacrificar a causa do proletariado mundial. Stálin não queria a revolução em nenhum país do mundo. […]
O movimento operário internacional e a causa da Revolução Espanhola
Não é de se estranhar, portanto, que o Komintern tenha permanecido em silêncio durante as primeiras semanas, enquanto, paralelamente, os diferentes partidos comunistas recebiam instruções para liderar iniciativas em favor da República burguesa ameaçada por Franco. […] Uma contradição evidente com a política conduzida por Stálin, mas que era certamente inevitável: entre os trabalhadores russos, 12 milhões de rublos foram rapidamente arrecadados em uma coleta organizada pelos sindicatos. Inúmeros comícios de apoio e coletas foram organizados na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos, contrastando com a cumplicidade dos signatários do acordo de não-intervenção. Centenas de militantes operários vindos da França, da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos, da Bélgica, da Irlanda, do Canadá e de numerosos outros países foram em socorro de seus irmãos na Espanha, muito antes da chegada das Brigadas Internacionais. Era igualmente evidente que a imensa simpatia que a luta contra o fascismo na Espanha despertava entre
os trabalhadores do mundo inteiro impunha certos gestos. E esses gestos entravam em contradição com a política de não-intervenção. Por exemplo, em 30 de julho de 1936, apenas cinco dias após o governo francês ter tornado público o seu compromisso de não enviar ajuda militar à República, uma multidão imensa reunida na sala Wagram, em Paris – por iniciativa, entre outros, do PCF (Partido Comunista Francês) – interrompia sem cessar o discurso do último orador, que não era ninguém menos do que Léon Blum, entoando em coro o slogan: “Aviões para a Espanha! Canhões para a Espanha!”. No entanto, quando, em outubro de 1936, a burocracia do Kremlin se viu forçada a fornecer ajuda militar à República, diante do escândalo que representava a ajuda descarada da Alemanha e da Itália e diante da impossibilidade de o “país do socialismo” continuar a desviar o olhar, os partidos comunistas – e, por lógica evidente, em particular o Partido Comunista Espanhol (PCE) – engajaram-se inteiramente em combater a maneira como os trabalhadores espanhóis lutavam contra o fascismo: a ajuda militar russa iria contribuir para isso, e ela foi usada para forçar todas as organizações a aceitarem a defesa incondicional da República burguesa contra qualquer tentativa de revolução social. […]
A palavra de ordem “Primeiro a guerra e depois a revolução”, defendida pelo stalinismo na Espanha com o apoio dos socialistas de direita e do anarquismo governamental, bem como de todas as facções do republicanismo burguês, serviu para desviar a atenção e, sobretudo, para mascarar o papel de Stálin. […] A única chance de vitória residia na vitória da revolução social. Mas a revolução social havia sido sacrificada para não assustar as “democracias” e não contrariar Moscou.”

