Ofensiva exprimia o horror das oligarquias e suas instituições com a organização dos trabalhadores
6 de junho de 2005: A Folha de São Paulo publica entrevista exclusiva do então deputado federal Roberto Jefferson (PTB), que denuncia o governo Lula (primeiro mandato) de pagar R$30.000,00 para deputados votarem suas propostas. A entrevista vitaminou a sanha das classes dominantes contra o PT.
Não se tratava de dizer que o PT e seus dirigentes ou militantes não poderiam cometer erros. Tratava-se de compreender o que estava em jogo. Uma síntese desta compreensão o jornal O Trabalho publicou na edição 724, de 21 de fevereiro de 2013 (auge dos julgamentos dos petistas), um artigo de Trotsky, “Nossa moral e a deles”. Diz Trotsky sobre as pressões da hipócrita moral burguesa e a necessidade de “romper moralmente com a opinião pública da burguesia”.
A ofensiva contra o PT na AP 470 colocou à prova a capacidade da direção do partido de “romper moralmente com a opinião pública burguesa”. A direção não passou na prova. Não rompeu com a opinião pública burguesa e nem com suas instituições regentes da orquestra antipetista, com alguns setores ditos de esquerda dentro do PT, entrando no cântico da ética.
A Corrente O Trabalho, no seu jornal, na intervenção nas instâncias do partido e atos que organizou em defesa dos companheiros do PT, não baixou guarda. No jornal O Trabalho neste período há um vasto material, com editoriais, reportagens, artigos e entrevistas que refletem nosso combate. Parte dele está publicado na brochura “Em defesa do PT e dos direitos democráticos”.
De 2005 a 2012: começa o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da AP 470. Em outubro de 2012, na edição 719, O Trabalho publica um editorial intitulado “Julgamento de exceção contra o PT”. O Diretório Nacional do PT reunido em novembro, denuncia irregularidades do julgamento, mas nenhuma ação prática tirou para defender nosso partido e seus dirigentes.
Uma carta de José Genoíno, ex-presidente do PT, também julgado na AP 470 e depois preso marcou esta reunião. Escreve Genoíno:
“Dizem no Brasil que as decisões do STF não se discutem, apenas são cumpridas. Discordo e reservo-me o direito de discutir a sentença que me foi imposta e que serei obrigado a cumprir. Este julgamento ocorre em meio a uma diuturna e sistemática campanha de ódio contra meu partido.”
O Trabalho e outros setores do PT que se dispusessem, organizou atos em defesa do PT e de nossos companheiros. Um foi na sede do Sindicato dos Engenheiros de São Paulo, em 24 de novembro de 2013. Um auditório lotado de militantes dispostos a lutar contra a hipocrisia da moral burguesa, em defesa do PT. Julgados, José Genoíno e José estiveram presentes. Em sua fala Genoíno fez uma imagem que vale recuperar. Disse que sentia com esta nossa iniciativa a mesma sensação que sentiu, quando preso pela ditadura, ao ter recebido, por baixo da porta da cela, uma garrafa de água para matar sua sede. Pois é, em grande parte da base petista havia a sede de defender seu partido, mas a direção não lhes passou uma garrafa de água.
Junho de 2013: reúne-se em Brasília o 5º Congresso do PT. No plenário levamos faixas em defesa do PT contra a AP470 e adesivos que exigiam “liberdade para os presos políticos do PT”. Em frente ao local do Congresso, jovens se reuniam ávidos por uma reação do partido. Mas ela não veio.

Na discussão congressual, uma emenda que apresentamos com várias assinaturas, incluindo membros da Construindo Um No Brasil, defendia uma campanha nacional para desconstruir a farsa jurídica e exigir a libertação de nossos companheiros presos. À época, José Genoíno, Zé Dirceu e Delúbio Soares. João Paulo Cunha estava para entrar. A proposta foi rejeitada pela maioria que escolheu fazer os recursos jurídicos, dentro da lei (!!!), a lei que nos perseguia, e virar a página. Temiam “cutucar a onça com vara curta”, pois não estava no radar apelar para a mobilização da militância, colocando os pingos nos Is. E a onça, poupada, virou a página para a Lava Jato.
A história não se repete, ela continua
O desarme do partido na luta contra a AP 470 levou ao desfecho seguinte. A prisão de ex-presidentes, de tesoureiros, de parlamentares do PT, sem uma reação à altura do partido foi um “exercício” de fortalecimento muscular das instituições, em consonância com as classes dominantes e a política imperialista, para seguir nos atacando.
5 de abril de 2018: O STF termina o julgamento do pedido de habeas corpus preventivo para Lula. A votação estava 5 a 5 e à então ministra Rosa Weber caberia desempatar. E ela desempatou: 6×5 contra Lula. 20 horas depois desta decisão o ímprobo Sérgio Moro decretou a prisão de Lula.
Pois é. O atual STF é o mesmo que vemos agora, ainda queda que variem alguns ministros. Um STF que está nu, uma nudez as togas não escondem.
No luta contra a AP 470, levantamos, e seguimos levantando, a necessidade de uma reforma política profunda, no caminho de uma Assembleia Constituinte Soberana. De lá para cá, a podridão das instituições que prenderam nossos dirigentes na ofensiva inaugurada pela AP 470, fede cada vez mais.
Por isso, com outros setores do PT, O Trabalho, com o Diálogo e Ação Petista, integra o movimento por uma reforma política radical, o que só o povo com a palavra pode fazer.
Neste 2026 em que marcos nossos 50 anos de luta, podemos dizer que mantivemos, desde nosso primeiro ano, nosso compromisso com a luta independente dos trabalhadores.
Independência que preservamos na nossa atividade política pelo esforço de ela seja sustentada pelos que apoiam nossa luta. A partir de outubro iniciaremos nossa tradicional, de décadas, campanha de arrecadação com nosso calendário. Em 2027 dedicado à luta das mulheres trabalhadoras contra a opressão.
Misa Boito

