“Sem teoria revolucionária não há prática revolucionária”

A frase do título, de Lênin, era uma divisa para a Organização Socialista Internacionalista (OSI), nascida em 1976. Desde 1978, a OSI editou a revista A Luta de Classe (LC), clandestina sob ditadura militar (1964/1985).

Saíram “regular irregularmente” 10 edições em cinco anos, com muito cuidado e não sem percalços. O que testemunha o apego à teoria, e a própria prática teórica para “expor o nosso ponto de vista às demais correntes”.

No curso da reconstituição da 4ª Internacional, LC foi depois substituída pelas revistas Tribuna Internacional e A Verdade.

O Editorial do número 1 traz este compromisso:

Com esse espírito, levanta questões que vão marcar o movimento operário, a bandeira do partido operário, assim formulado, isto é, ruptura com o sistema ARENA (situação) + MDB (oposição) criado pelo regime militar em 1965 e, também, a luta por uma central sindical independente, contra a estrutura sindical atrelada ao Ministério do Trabalho. Por fim, ao lado de resoluções do Comitê de Organização pela Reconstrução da 4ª Internacional (CORQUI), traz o balanço da greve dos mineiros da Bolívia e da greve geral no Peru de 1976.

A 1ª edição de LC vinha sob uma capa falsa de publicação de um certo “CEC – Centro Editorial de Cultura”, de modo que só na sexta página se chegava ao órgão da OSI.

Mas desde maio de 1978, a OSI impulsionava com jovens jornalistas, sindicalistas e militantes, a edição do jornal legal O Trabalho. Seu jornal nasceu nas condições do regime militar, não poderia ser partidário da 4ª Internacional. A discussão programática era feita, pois a 4ª Internacional não se dissolve, através do órgão clandestino do Comitê Central da OSI, A Luta de Classe.

A edição nº2, graficamente mais acabada, dá espaço ao “Novo Momento da Revolução Proletária no Irã”, a revolução dos conselhos operários e greves com ocupação que derrubou o odiado regime do Xá Reza Pahlevi, apesar de que a traição do Tudeh (PC) facilitasse a assunção do poder dos mulás e a república islâmica. A OSI clandestina puxou um ato público de solidariedade à revolução iraniana.

O internacionalismo é uma marca: a edição nº 3 (janeiro de 1980) abriu para a inspiradora vitória revolução da FLSN na Nicarágua, a edição nº 5 (outubro de 1980), por sua vez, avançou à quente na revolução política na Polônia que marca a crise do stalinismo, temas que incidiram para marcar a trajetória inicial independente do PT.

Voltando, a edição nº 2 abre com o editorial “Quem Somos Nós”, claramente dedicado a um público ampliado pelo ascenso das lutas sindicais e estudantis. Ele analisa a “espontaneidade presente na onda de greves de 1979 por reivindicações salariais”. Daí, conclui “os trabalhadores em movimento estão hoje se chocando frontalmente com o aparelho de Estado” e, polemiza, “jogando por terra as concepções derrotistas segundo as quais a classe trabalhadora devia primeiro ser ‘conscientizada’”.

A consciência vem a partir da ação – ganhava então as ruas o movimento político contra o regime, pela Anistia Ampla Geral e Irrestrita, alimentado pela irrupção dos operários.

Mas a espontaneidade não dispensa um programa político (teoria). O Editorial afirma que A Luta de Classe, mesmo nome do órgão dos trotskistas dos anos 30, reivindica a sua “luta contra os ataques de Vargas que visavam destruir os sindicatos independentes, e a luta por uma Constituinte Democrática e Soberana após 1930 e em 1945, quando os stalinistas do PCB (muitos deles hoje no PCdoB) apoiavam o ditador e a Constituinte com Vargas”. Ora, “com Vargas” queria dizer continuidade, e a não ruptura democrática para realizar as aspirações de justiça social e democracia travadas.

Justamente, uma trava da espontaneidade são as barreiras e as armadilhas montadas pelas classes dominantes, que já nos anos 30 dependiam do apoio de aparelhos contrarrevolucionários com audiência, como o stalinismo e o nacionalismo burguês.

O problema não é brasileiro, os atores mudaram um pouco desde a queda da URSS, mas os termos da equação permanecem – é necessário um verdadeiro partido operário independente e comprometido, que não seja freio nem conciliador.

A edição nº 7 de novembro de 1981 aborda “O PT, as eleições (de 1982) e a luta de classes”. A OSI tivera teve uma discussão interna em 1979 sobre a questão de um partido operário (o PT) sem base prévia sindical independente. Mas ela decidiu colocar 10% dos seus militantes no PT já na sua fundação no Colégio Sion, em fevereiro de 1980. Completados os debates, no seu 4º Congresso, em outubro, a OSI decidiu integrar plenamente no PT. Pouco depois, adiada de 1982 para 1983, veio a fundação da CUT na via da ruptura com a estrutura sindical – como se vê, a dialética supera a mecânica.

Na discussão eleitoral, LC apoiou a decisão do PT de lançar “candidatos próprios” nas eleições de 1982, e acrescenta a posição “contra coligações”, que prevaleceu (o voto foi vinculado em todos os níveis). Alguns “explicam” esta opção como política de afirmação do novo partido. Mas a verdade é que não havia partidos legais de esquerda (PCB e PCdoB enfurnados no MDB) para uma política de frente, e os outros eram partidos burgueses comprometidos “transição lenta, gradual e segura” da ditadura (continuidade), e não com as aspirações populares (ruptura).

Em 1976, a OSI havia chamado ao Voto Nulo e, em 1978, “Nem Arena Nem MDB, Voto Nulo por um Partido Operário”. Não obstante o voto ser de fato obrigatório, o total de abstenções, brancos e nulos, chegou a 40% dos eleitores inscrito, lembra a edição nº 7.

Foi nesse terreno que o PT vingou. A revista LC avaliou com realismo revolucionário a estratégica vitória do PT sobre os obstáculos à sua legalização, tanto do regime (processos, crimes e prisões), quanto da parte dos stalinistas que o acusavam de dividir a “oposição” do velho MDB colaboracionista.

Esta edição de 1981, com essa avaliação, trazia uma vacina. Era claro que a eleição de 1982 não iria ser um passeio. O PT saiu como partido nacional com uma bancada de 8 deputados federais, embora sem governadores ou senadores. Mas houve ingênuos e fantasistas que saíram frustrados. Só que o PT seguiu crescendo e a luta por um partido operário digno do nome ficou ainda mais crucial.

Markus Sokol

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