Unificação de grupos trotskistas se dá durante a luta contra a ditadura militar
Há meio século o mundo vivia as consequências do chamado “choque do petróleo” de 1973, o embargo decidido por países árabes produtores aos EUA e outros países apoiadores de Israel na “Guerra do Yom Kipur” (1), o que provocou a explosão dos preços do
combustível e uma prolongada crise econômica mundial. O cenário também era marcado pela derrota imposta aos EUA na guerra do
Vietnã em 1975 e pela Revolução dos Cravos de abril de 1974 em Portugal, que se combinou com a independência de suas antigas colônias africanas, como Angola e Moçambique. No Brasil a ditadura militar, com o general Geisel, falava em “distensão lenta, segura e gradual”, mas mantendo o seu aparato repressivo. A ditadura de Pinochet no Chile entrava em seu terceiro ano, enquanto na Argentina o golpe
militar de 1976 levava o general Videla ao poder, o que possibilitou a Operação Condor, a repressão conjunta desses regimes
aos que lutavam contra as ditaduras na região. O ano de 1976 começou no Brasil com o assassinato do operário metalúrgico Manoel
Fiel Filho nas dependências do DOI-CODI (2) em janeiro e terminou em dezembro com o “massacre da Lapa” em que o exército
assassinou três dirigentes do PCdoB. O movimento estudantil que se reconstruía, concentrava a resistência e oposição
à ditadura, com o movimento operário altamente vigiado e obrigado a um trabalho de base semiclandestino.
A criação da OSI
É nesse quadro que ocorreu a criação da Organização Socialista Internacionalista (OSI), numa conferência clandestina realizada na Praia Grande (SP) em novembro de 1976. Essa conferência concluiu um processo de unificação de grupos trotskistas brasileiros que se deu sob impulso do Comitê de Organização pela Reconstrução da 4ª Internacional (3). Ele se cumpriu em duas etapas: no início de 1976 formou-se a Organização Marxista Brasileira (OMB) com a fusão da Fração Bolchevique Trotskista (FBT), com o Grupo Outubro e a Organização
de Mobilização Operária (OMO); em novembro a OMB fundiu-se com a Organização Comunista 1º de Maio (surgida em 1968 como grupo), dando origem à OSI, que passou a contar com mais de uma centena de militantes em vários estados. O que aproximou os grupos que
deram origem à OSI foi a crítica comum tanto à política traidora do Partido Comunista Brasileiro (PCB), quanto ao “foquismo” guerrilheiro nos “anos de chumbo” da ditadura (1968-72), que, isolado das massas, foi brutalmente liquidado pelo aparato policial e militar.
Os trotskistas defendiam um trabalho junto às massas para reconstruir suas organizações na luta pelas liberdades democráticas contra a ditadura; um trabalho baseado nos princípios de independência de classe e do internacionalismo.
Liberdade e Luta

Poucos meses antes da criação da OSI, em julho de 1976, a Frente Estudantil Socialista, ligada ao 1º de Maio, e a Tendência pela Aliança Operário-Estudantil, ligada à OMB, depois de um trabalho comum nas mobilizações estudantis do período, como a greve da ECA de 1975, unificaram-se, dando origem à Liberdade e Luta (Libelu), inicialmente como nome da chapa que concorreu às primeiras eleições do DCE-Livre da USP. A tendência estudantil Liberdade e Luta, em pouco tempo, atraiu milhares de jovens em todo o país, jogando um papel importante nas mobilizações e passeatas por “Abaixo a ditadura” que antecederam a entrada em cena da classe trabalhadora com a onda de greves iniciada no ABC em 1978.
O trabalho no movimento sindical
Para a OSI a busca por implantar-se no movimento operário era o principal. Os êxitos obtidos no movimento estudantil não mudavam essa prioridade. As forças que nela se fundiram já animavam tendências sindicais classistas e oposições aos “pelegos” e à estrutura sindical
oficial, publicando boletins e montando grupos de base em várias categorias. O seu primeiro órgão foi o “Jornal dos Trabalhadores”,
produzido de forma semiartesanal (mimeografado). Dois anos após ele será substituído pelo jornal impresso “O Trabalho”, lançado em 1º de maio de 1978. Através de “O Trabalho”, a OSI acompanhou e orientou seus militantes a intervir na onda de greves que se espalhou
por todo o país a partir de 1978. O que lhe permitiu desenvolver a sua própria orientação política: “Abaixo a Ditadura, por uma
Constituinte Soberana”; luta por sindicatos livres e uma Central Sindical Independente; luta por um Partido Operário.
A questão do partido operário

As eleições de 1978, no quadro do bipartidarismo da ditadura, possibilitaram a campanha “Nem Arena, nem MDB, voto nulo por um Partido Operário”, feita pela OSI junto com outros setores (como a oposição metalúrgica de São Paulo). Isso, quando vários dos que viriam a dar
origem ao PT faziam campanha por candidatos do MDB. A atividade da OSI desdobrou-se nas lutas pela liberdade dos presos políticos;
pela Anistia ampla, geral e irrestrita; pela libertação de Lula e dirigentes grevistas presos. Campanhas em apoio à revolução na Nicarágua e à luta do sindicato “Solidariedade” contra a burocracia stalinista na Polônia, destacavam o caráter internacionalista de sua ação.
As greves de massa colocaram a questão da liberdade sindical e da unidade dos trabalhadores numa central sindical. A OSI participou da construção do Encontro Nacional de Trabalhadores em Oposição à Estrutura Sindical (ENTOES, 1979/80), que agrupou o “sindicalismo
combativo” e de outras iniciativas que confluíram para a Conferência Nacional da Classe Trabalhadora – a CONCLAT de 1981 – que criará a comissão nacional pró-CUT.
A OSI, antes da fundação do PT em 1980, havia adotado o objetivo de ter mil militantes e se tornar uma organização legal. Sua posição a favor de um partido operário independente a fez, após intensa discussão interna, aderir à construção do PT, o que será objeto de um próximo artigo desta série.
Lauro Fagundes
(1) “Guerra do Yom Kipur”: trata-se da guerra árabe-israelense de 6 a 26 de outubro de 1973, quando forças do Egito e da Síria
tentaram retomar os territórios perdidos para Israel em 1967 na “Guerra dos seis dias”.
(2) DOI-CODI: Destacamento de Operações
de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, centro de tortura na Rua Tutóia em São Paulo durante da ditadura militar.
(3) A 4ª Internacional, fundada em 1938, sofreu uma crise de dispersão em 1952-53, fruto da revisão de seu programa feita por
Michel Pablo e outros dirigentes. Afirmando a necessidade de sua reconstrução sobre a base do “Programa de Transição”, surgiram
sucessivos agrupamentos internacionais. Em 1972 é constituído em Paris o Comitê de Organização pela Reconstrução da 4ª Internacional
(CORQUI), com a OCI francesa e Pierre Lambert.

