Queda do Muro de Berlim e a “nova ordem” com guerra dos EUA no Iraque

O 9 de novembro de 1989 marcou uma virada histórica na situação mundial. Neste dia, por ação das massas da Alemanha oriental, foi derrubado o Muro de Berlim, símbolo da divisão da Europa e do mundo em zonas de influência dos Estados Unidos e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), desenhada ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-45). A 4ª Internacional (Centro Internacional de Reconstrução), da qual a Corrente O Trabalho do PT era a seção brasileira à época, caracterizou da seguinte forma a derrubada do Muro:
“Um giro de caráter histórico porque acarreta o desabamento do equilíbrio mundial edificado ao final da guerra mundial (acordos de Yalta). Isso significa que não só desestabiliza os Estados dos países onde a propriedade privada dos grandes meios de produção foi destruída e onde reina uma burocracia parasitária e contrarrevolucionária, mas que também questiona as ‘condições anteriores de existência’ dos Estados imperialistas e do conjunto dos Estados capitalistas, desestabilizando de fato a ‘ordem mundial’, garantia de funcionamento dos sistemas em putrefação da exploração capitalista e da preservação do poder e privilégios da burocracia”. (revista Tribuna Internacional nº 57/58, setembro de 1990)
Assim, para nós, o processo da revolução política contra as burocracias que haviam usurpado o poder da classe trabalhadora nos países do chamado “socialismo real”, longe de configurar o “fim da história” ou a “vitória definitiva do capitalismo”, abria um período de convulsões também nos países imperialistas e capitalistas.
A dissolução da URSS em dezembro de 1991, minada pelas políticas de abertura ao mercado capitalista promovidas por Gorbatchov (1), veio aumentar a crise de decomposição dos PCs e a reafirmar, para a 4ª Internacional (CIR), a necessidade de ajudar na recomposição do movimento operário sobre um eixo de independência de classe. Uma discussão que aqui no Brasil à época desenvolvemos no interior do PT e da CUT, que também foram atingidos pelos estilhaços do Muro de Berlim.
Bush pai vai à guerra pela “nova ordem mundial”
Desde agosto de 1990, com a invasão do Kuwait por Sadam Hussein, o imperialismo dos EUA, sob a presidência de George Bush (pai), mobilizou a ONU e seus aliados na Europa e na região do Oriente Médio para impor sanções ao Iraque e preparar a primeira Guerra do Golfo (em referência ao Golfo Pérsico).
Iniciada com bombardeios maciços em 17 de janeiro de 1991, o poderio de fogo enorme dos EUA levou à capitulação de Bagdá já em 28 de fevereiro, após cinco semanas de intensos combates com as armas mais modernas e o dispêndio de bilhões de dólares.
Tratava-se para o imperialismo dominante, de acordo com as palavras do próprio Bush pai, de impor uma “nova ordem mundial”, com os EUA sendo a “polícia do mundo” e subordinando a seus interesses os demais imperialismos e a ONU.
Mas dentro dos próprios EUA, em 26 de fevereiro, houve manifestações contra a guerra em Washington e San Francisco, convocadas por diversas organizações, que reuniram mais de 200 mil pessoas em cada uma dessas cidades, com a participação inclusive de veteranos da guerra do Vietnã. Também houve manifestações “contra a guerra por petróleo” na Alemanha, nos dois lados do muro recém-derrubado, na França, Espanha e outros países.
Manifesto contra a guerra e a exploração
Poucos dias antes do início dos bombardeios no Iraque, reunia-se a Conferência Mundial Aberta “pela Internacional Operária” em Barcelona na Espanha, entre os dias 5 e 9 de janeiro de 1991. Contando com 200 participantes vindos de 53 países, essa conferência, convocada por militantes espanhóis, reuniu companheiros de diferentes origens políticas para discutir a situação aberta com a queda do Muro de Berlim e a iminente guerra imperialista de Bush no Oriente Médio.
A delegação brasileira em Barcelona contou com a participação de José Dirceu, então secretário-geral do PT, do suplente de vereador em São Paulo, Paulo Gnecco, antigo militante do PCB, além dos militantes de O Trabalho (OT), a deputada federal Maria Laura (DF), Markus Sokol, Misa Boito e Julio Turra.
A conferência assumiu uma campanha internacional contra a guerra no Golfo, adotando o Manifesto contra a Guerra e a Exploração proposto por Pierre Lambert, dirigente francês da 4ª Internacional (CIR), e constituiu o Acordo Internacional dos Trabalhadores, como quadro amplo e flexível de discussão e ação internacionalista. Um comitê internacional contra a guerra também foi formado.
Campanha no Brasil
Com a volta da delegação ao Brasil foi possível organizar debates em faculdades, sindicatos, câmaras municipais e em duas estações de TV de São Paulo (Cultura e Record), que colocavam no centro a exigência de fim dos bombardeios da coalizão liderada pelos EUA no Iraque.
Um ato público contra a guerra no Golfo reuniu centenas de manifestantes em São Paulo. Militantes de OT, junto à Juventude Revolução, fizeram bancas em pontos centrais de várias cidades para difundir material contra a guerra.
Foi assim que a corrente O Trabalho do PT participou desse esforço internacional para lutar contra a guerra imperialista no início dos anos 90. Uma pauta que recobra atualmente enorme importância.
Julio Turra
Nota
1- Mikhail Gorbatchov: Secretário geral do Partido Comunista da União Soviética, último dirigente da URSS de 1985 até a sua dissolução em 1991. Foi o impulsionador da política da “Perestroika”, abertura para o mercado capitalista, e da “Glasnost”, limitada abertura política interna. Prestigiado no mundo capitalista, Prêmio Nobel da Paz, era extremamente impopular junto ao povo russo e das outras repúblicas soviéticas. Renunciou à presidência após a dissolução da URSS.

