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Declaração do Secretariado Internacional da IV Internacional – 15 de janeiro de 2015

21 de janeiro de 2015
marcha paris11jan

O reagrupamento de emergência em Paris no dia 11 de janeiro de 2015 de 44 chefes de Estado com o secretário-geral da Otan, o presidente da Comissão Europeia e o representante do secretário-geral da ONU foi um reagrupamento que se impôs  a pedido de Hollande (presidente da França) à frente da marcha de um milhão e meio de cidadãos e de jovens que se manifestavam contra os atentados de 7, 8 e 9 de janeiro. Reagrupamento esse que marca o início de uma nova fase da guerra que se estende há 15 anos e que, iniciada no Iraque, atinge hoje, sob diversas formas, todos os continentes.

Eles estavam todos lá de braços dados ao redor de um presidente francês e de seu governo amplamente desacreditados: Junto de Cameron (Grã-Bretanha), Merkel (Alemanha), Renzi (Itália), Rajoy (Estado espanhol), os Junker (Comissão Europeia), o secretário-geral da Otan… não faltou nenhum. Nem mesmo Samaras (Grécia), cujo governo de união nacional havia caído duas semanas antes como produto da resistência dos trabalhadores gregos aos memorandos da Troika (como é chamada na Europa a união do Banco Central Europeu, a União Européia e o FMI). Estava lá o chefe do governo turco, os representantes das monarquias do Golfo Pérsico, uma dezena de chefes de Estado africanos com o Mali – país que está sob ocupação militar francesa – à frente… Poroshenko, o presidente ucraniano, e Lavrov, o ministro das Relações Exteriores da Rússia.

E, como a cereja no bolo, Mahmoud Abbas (Autoridade Palestina) foi convidado para desfilar ao lado do carrasco de Gaza, Netanyahu, acompanhado de dois ministros de extrema direita.  Um dos quais é conhecido por ter declarado: “Eu matei muitos árabes na minha vida e não tenho nenhum problema com isso.”

Uma verdadeira provocação, necessária para preparar os enfrentamentos “comunitários” que virão.

Na reunião do Secretariado Internacional de 13 e 14 de novembro de 2014 havíamos escrito:

“O conjunto das relações políticas e sociais construídas no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial que, de um modo ou outro, formam a trama de todos os Estados europeus e que constituiu uma posição do proletariado mundial, deve, para o capital financeiro, ser irremediavelmente destruído a fim de se poder esmagar por todos os meios o valor da força de trabalho do proletariado em escala mundial.

Até mesmo a lembrança dessas conquistas sociais e políticas deve ser apagada da memória dos trabalhadores em todos os continentes. Neste sentido, a guerra que se estende é indissociável dessa ofensiva de destruição e de regressão.

A instauração de um estado de guerra  juntamente com o questionamento de todas as conquistas da democracia política é indispensável para criar as condições políticas de êxito de tal ofensiva.

Nesse contexto, é lógico que atentados terroristas se produzam na Europa e nos principais países da coalizão a fim de fornecer uma base ao desenvolvimento de campanhas chauvinistas dirigidas contra o afluxo de milhares de refugiados para tentar desorganizar a resistência da classe em nome da necessária ‘união sagrada’.

A guerra no Oriente Médio e seu desenvolvimento no Sahel tornaram-se um elemento constitutivo da situação interna da França, da Grã-Bretanha, da Alemanha, Espanha e Itália. Ela é um elemento da abertura da crise revolucionária que amadurece em todo o continente europeu.

A engrenagem da guerra tornou-se um eixo do desenvolvimento de toda a situação europeia com todas as suas consequências: o agravamento da crise dos regimes, o aguçamento da ofensiva anti-operária e as explosões revolucionárias que essa engrenagem prepara. Uma engrenagem que ordena as coisas no interior dos grandes países imperialistas  – os ditos ‘países avançados’ – onde a burguesia se prepara para desencadear sob novas formas uma campanha chauvinista que não fica nada a dever às que foram desenvolvidas às vésperas das duas últimas guerras mundiais para desarmar a classe com a ajuda das direções das organizações de classe e que se beneficiam desde  já do apoio das direções social-democrata e stalinista.

É evidente que a coalizão militar constituída sob o alto comando estadunidense em seguida ao colapso do Iraque e à aparição do “Estado Islâmico” (Daesh) tinha necessidade de iniciar uma nova etapa no estreitamento dos laços de colaboração com todos os Estados decididos a se integrar nela em escala mundial e particularmente com os Estados europeus. Ela tinha necessidade disso para estender em escala mundial a guerra. Guerra pelos mercados, guerra pelo controle das matérias primas. Uma guerra social contra todos os povos.

O enviado especial de Obama, Holder, ministro da Justiça do governo estadunidense, convidado para assistir à reunião dos ministros europeus e sem ao menos se dar ao trabalho de desfilar ao lado de seus “aliados” convocou todos para estarem em Washington no dia 18 de fevereiro numa “Cúpula Mundial contra o Terrorismo”  no mesmo momento em que o comando estadunidense anuncia um deslocamento de suas tropas para a base de Moron de la Frontera (sul do Estado espanhol). Uma base logística para a intervenção em todo o continente africano.

Para dar um novo passo na guerra em curso essa coalizão tinha a necessidade de se  apresentar aos povos do continente e aos povos do mundo como a resposta a sua aspiração por segurança. Os atentados de 7 e 9 de janeiro perpetrados dessa vez no coração da Europa forneceram-lhe, com a rápida ajuda de Hollande, a ocasião sonhada.

Bruscamente, todos os elementos de uma ampla provocação vem à luz do dia. A aparição simultânea de manifestações anti-Islã na Alemanha, Áustria, Suíça e Holanda indicam que o terreno está sendo preparado ativamente para “responder” aos atentados que são programados e dos quais, infelizmente, se deve prever a multiplicação. O que já estava inscrito na situação nos últimos tempos está em vias de tomar forma frente aos nossos olhos.

O capital financeiro em plena crise de decomposição, de um lado está confrontado ao anúncio de uma recessão de amplitude sem precedentes fruto  da crise do sistema financeiro que dela decorre e, de outro lado, confrontado à resistência da classe operária procura destruir e integrar suas organizações de classe para desagregá-la e reduzi-la a uma soma de indivíduos flexíveis e sem direitos.

Mas, quaisquer que sejam os desenvolvimentos imediatos, a linha de força da situação continua a ser a resistência das massas. Resistência que, no dia seguinte ao 11 de janeiro e desde então, expressou-se sob diversas formas no interior do movimento operário contra o alinhamento à união sagrada.

Os Estados europeus confrontados a uma classe operária que, se sofreu golpes, mantém-se essencialmente organizada, o imperialismo decidiu optar por soluções que experimentou com os povos do Oriente Médio e da África: a desagregação de Estados e nações sob a pressão de conflitos étnicos e comunitários.

A importação para o continente europeu da guerra desenvolvida pela coalizão militar imperialista contra os povos do Oriente Médio. A importação para o coração dos Estados que participam dessa coalizão dos atentados que há décadas devastam populações civis desses países faz parte do plano que se fixa para desagregar o proletariado dos países imperialistas em “comunidades” inimigas.

A orquestração nos mínimos detalhes – incluindo-se a presença de Netanyahu, o carrasco de Gaza – deste 11 de janeiro em Paris designou o inimigo interno: as populações imigradas originárias de países de cultura muçulmana.

Por essas razões a ameaça de atentados que pesa sobre todos os países europeus tornou-se um meio de pressão para permitir aos governos burgueses tentar integrar as organizações sindicais e realizar sob formas próprias a cada país a “união sagrada” sobre as ruínas de tudo o que subsiste da democracia política.

Uma imensa confrontação está em vias de amadurecer. Ela se alimenta do fosso cavado entre o que estava contido na angústia dos manifestantes em 11 de janeiro e o conteúdo social e político da “união sagrada” que dominou essa manifestação. Ela se alimenta também da recusa crescente por parte de amplos setores da classe operária e da juventude a se prestar a uma operação percebida de forma justa como uma ameaça dirigida contra eles.

A classe operária cujo, movimento continua por ora entravado por suas direções, é testemunha de uma resistência que retira suas forças, particularmente na França, das relações sociais surgidas nos anos 1945-1947.

De nenhuma maneira trata-se de subestimar a pressão que o dispositivo contrarrevolucionário e totalitário já exerce sobre as condições nas quais a classe operária é levada a resistir particularmente nos países europeus que são o alvo imediato da operação. Mas é indispensável assinalar as primeiras fissuras que se vêem nesse dispositivo.

A brutalidade da ofensiva não eliminou as incertezas que continuam a assaltar os dirigentes dos Estados da União Europeia.

Valls, primeiro-ministro na França, não conseguiu calar aqueles que na CGT e na CGT-FO (centrais sindicais francesas) decidiram não se desarmar diante da Lei Macron. As negociações na categoria metalúrgica da Alemanha se abrem em um clima tenso. O impulso que se expressou nas greves gerais de um dia na Bélgica e na Itália não se dissipou. O Banco Central Europeu (BCE) hesita quanto às medidas que deveria anunciar poucos dias antes do resultado das eleições na Grécia.

Não somente a batalha não está perdida como também ela se travará a partir de uma frente ainda mais ampla.

Mais uma vez, diante do roteiro elaborado pelo imperialismo e seus agentes fomentadores da guerra, o futuro da humanidade repousa nas mãos da classe operária e somente dela.

A única força que pode evitar que a sociedade na França e de toda a Europa afunde em enfrentamentos “comunitários” é a classe operária que, reagrupando-se como classe com suas organizações, reunindo todas as suas componentes para desdobrar toda a sua potência no combate que deve dirigi-la contra seus respectivos governos para obrigá-los a abandonar as “reformas” ditadas pela União Europeia – instrumento do capital financeiro – e a romper com a coalizão militar imperialista. É o primeiro passo que permite abrir o caminho à constituição na Europa de governos que se engajarão em uma livre e pacífica colaboração de todos os povos do continente, ponto de apoio decisivo para a organização em escala mundial da colaboração pacífica de todos os povos do mundo, libertos da dominação imperialista.

Toda a defesa da civilização se concentra aí.

15 de janeiro de 2015



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