O crime organizado está no Estado

Podridão nas instituições


Na edição anterior de nosso jornal, a capa categoricamente afirmava: “o sistema político está podre”. Essa afirmação fica mais evidente a cada dia, e não é só o sistema político. A podridão se espalha por diversos setores do Estado. Investigações recentes, tanto em São Paulo como no Rio, escancararam a sórdida relação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) com o alto escalão das forças de segurança e da política dos dois estados.


O Rio de Janeiro, por exemplo, está nesse momento sem governador após a renúncia de Cláudio Castro. Isso se deve ao fato de que o sucessor, Rodrigo Barcellar, presidente da ALERJ (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), foi preso junto com outro deputado, o TH Joias, por envolvimento direto com o crime organizado. TH e Bacellar entregavam informações sobre operações policiais contra o CV. Essas informações eram vazadas, segundo as investigações, pelo desembargador Marcário Júdice do Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Há indícios de envolvimento de outros agentes federais, que a investigação ainda apura. São o legislativo e o judiciário mancomunados com o crime.


Em São Paulo, a Operação Janus, deflagrada pelo Ministério Público, expôs a relação promíscua de operadores financeiros do PCC com o alto comando da Polícia Militar de São Paulo, do governador Tarcísio de Freitas. A operação revelou que os coronéis Luiz Carlos Pereira Martins e José Augusto Coutinho, este ex-Comandante Geral da PM-SP e da ROTA, estão entre os agraciados com dinheiro vindo direto do PCC, que mantém uma longa lista de pagamento para policiais que ocupam diferentes postos na corporação. A descoberta confirma velhas especulações sobre a relação polícia e bandido. Fica evidente que a última coisa que o sistema está preocupado em combater é o crime, pois o sistema podre precisa do crime, como o crime precisa da podridão desse sistema para se perpetuar. Enquanto na ponta do fuzil a PM vem matando nas periferias em nome de um mentiroso combate ao crime organizado, do lado de cima o que vemos são políticos, desembargadores e policiais que tem viagens, festas, entre outros, bancados por criminosos.

É preciso mudar a lógica desse jogo. Como poderemos discutir a punição daqueles que cometem chacinas nas periferias, se há desembargadores no bolso dos criminosos? Como poderemos discutir uma segurança pública de verdade, quando quem deveria controlar e estabelecer o básico para uma atuação descente das forças de segurança, estão sentados ao lado direito de criminosos? A PM, esse entulho da ditadura que tortura nos bairros mais periféricos da cidade a população, vê com bons olhos aqueles que bancam suas regalias. O crime organizado que vem se infiltrando no sistema econômico (Faria Lima), como na política, sabe que está protegido enquanto tiver na sua planilha os pagamentos em dia de políticos, policiais e juízes. Ao fim, são todos aliados. Todos filhos do podre sistema político que contribui diariamente para a violência policial e o crime organizado crescente no Brasil. A necessidade de uma reforma radical do sistema político coloca em debate a urgência de mexer em instituições como o judiciário e a própria polícia, para que possamos ter uma política real de combate ao crime organizado e de uma verdadeira segurança pública nacional.

Pedro Maria Nasir

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